Artista paranaense ganha bolsa da Funarte
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quarta-feira, 03 de dezembro de 2008
Francismar Lemes<br> Reportagem Local 
De um lado, cartas de baralho e do outro, caixas de fósforo. No meio, Deus e o Diabo jogam e quem ganhar acenderá o fogo. A disputa escatológica acontecia na cabeça de Jardelina da Silva, a Jarda, uma ex-costureira de Bela Vista do Paraíso que, nos seus delírios, transformou-se numa cavaleira do Apocalipse, que ao invés de trazer a fome, as guerras e a miséria, tinha a missão de ajudar a salvar o mundo.
A salvação pela arte. Como o sergipano Arthur Bispo do Rosário, considerado louco por alguns e gênio na opinião de outros, autor de uma obra comparada a do pintor e escultor franco-americano Marcel Duchamp, Jardelina colocou na cabeça o elmo de Quixote e assim enxergou um mundo que somente existia em sua imaginação.
A disputa entre Deus e o Diabo foi uma das muitas que a arte criada por Jardelina narra, tendo como campo de batalha um chapéu sem topo enfeitado com as cartas e as caixas de fósforo com que desfilava pelas ruas de Bela Vista. Foi assim que ela se apresentou ao artista plástico Rubens Pillegi Sá que, em 1996, a encontrou pela primeira vez.
Aos 74 anos, a cavaleira do apocalipse morreu de insuficiência respiratória em decorrência de um câncer, em 2004, mas a sua obra continua inspirando. Formado em Artes Cênicas pela Universidade Estadual de Londrina (UEL), Alessandro Antonio da Silva, coordenador da Mostra de Dança Contemporânea e do Festival Unipar de Teatro, em Umuarama (PR), trará de volta o universo escatológico da personagem. O projeto dele foi o único do Sul do País a ganhar a Bolsa de Estímulo à Produção Crítica em Artes, da Fundação Nacional de Arte (Funarte), no valor de R$ 30 mil. A bolsa tem o objetivo de favorecer a profissionalização e o aprofundamento artístico através de obras e pesquisas.
''No total, 30 bolsas foram distribuídas no Brasil nas linguagens artes visuais, literatura, dança, dramaturgia, fotografia, música popular e erudita. Um dos critérios que acredito que influenciou a minha escolha, representando a arte cênica paranaense, é que desenvolvo um trabalho em Umuarama, região que está fora dos grandes centros de produção cultural'', avalia Alessandro, que prevê a edição de um livro em seu projeto ''Jardelina da Silva: o processo criativo de uma 'artista' psicótica pode ser comparado com a cena performática do século XX?''.
Diagnosticada como esquizofrênica paranóica, uma frase recorrente de Jardelina era: ''Dá licença, vou lá fora gritar e volto já''. O grito e as suas roupas carregadas de simbolismo eram as suas armas para salvar o mundo. A partir de 1986, ela passou a eternizar esse mundo ao se deixar fotografar em suas performances.
Alessandro acrescenta que Jardelina chegava a dirigir o fotógrafo da cidade nas sessões de fotos, reunindo um acervo de mais de 250 fotografias. ''Vejo na arte de Jardelina uma alusão grande na questão da loucura e performance do século 20. Ela reúne em si o teatro, a moda, referências de rua, fotografia na perspectiva da loucura. A grande discussão da cena performática do século 20, envolvendo arte e loucura'', afirma Alessandro.
Para chegar aos dias de guerra entre Deus e o Diabo na cabeça da personagem, Alessandro pretende utilizar o vídeo ''Jardelina e sua Assinatura no Mundo'', produzido por Pillegi, que acompanhou o final da trajetória da salvadora em seu universo imaginário.
Como Bispo do Rosário, Jardelina também era sergipana, ela chegou ao Paraná por volta de 1960 para trabalhar na lavoura.


