Artista no traço, palavra e palco
PUBLICAÇÃO
sábado, 27 de setembro de 2008
Rodrigo Juste DuarteEquipe da Folha 
Conhecido há duas décadas por seu talento em quadrinhos, arte em que deu um intervalo após onze álbuns lançados, Lourenço Mutarelli direcionou suas atenções artísticas para diversas outras áreas nos últimos anos, desenvolvendo trabalhos como ator, dramaturgo e, principalmente, como escritor.
Seu livro de estréia, ''O Cheiro do Ralo'', de 2002, foi adaptado para o cinema, tornando seu nome mais conhecido. O mesmo caminho está percorrendo ''O Natimorto'' (em fase de pós-produção, com o próprio Mutarelli atuando como protagonista) e já foram vendidos os direitos para filmar seu mais recente romance, ''A Arte de Produzir Efeito Sem Causa'' (editado pela Companhia das Letras), que Mutarelli lançou nesta semana em Curitiba.
A capital paranaense é parada frequente do autor, que há 10 anos realiza encontros de lançamentos de suas obras, geralmente a convite da livraria Itiban. ''Curitiba é a única cidade em que eu lanço meus livros um dia depois de lançar em São Paulo'', comenta o ator, que também veio a Londrina para participar de uma mesa redonda sobre quadrinhos e literatura jovem no festival literário Londrix.
Você começou como quadrinhista, e hoje se dedica à literatura. Você pretendia abandonar os quadrinhos de vez?
No fim, eu não sei se eu quis abandonar os quadrinhos. Fui seguindo o que foi acontecendo. Não foi um abandono, mas havia uma vontade devido a algumas questões pessoais. Tive uns problemas de censura nos meus últimos quadrinhos, entre outros dissabores. Eu tenho desenhado pAra mim e em alguma hora eu vou aproveitar isso de alguma forma. Acho que em algum momento eu volto, mas não voltarei o mesmo.
A passagem para a literatura se deu com ''O Cheiro do Ralo'', que anos depois de lançado se tornou um filme muito bem recebido. A literatura trouxe benefícios?
No meio literário eu fui recebido como um igual, coisa que nunca aconteceu entre os quadrinhistas, que nunca me aceitaram direito. Outra coisa boa da literatura é que me abriu espaço para o teatro, pois muita gente dessa área começou a me procurar. Escrevi algumas peças, três delas estão para ser montadas. Os textos foram publicados no livro ''O Teatro de Sombras''. ''O Natimorto'' também foi adaptado para o teatro, pelo Mário Bertolotto, e também foi filmado. Eu quero fazer mais coisas nessa área, inclusive dirigir uma peça.
Em ''O Natimorto'' você é o protagonista, e interpreta um personagem que você mesmo criou. Como foi essa experiência?
Era um desafio muito grande. O personagem é um presente para um ator, pois ele vive várias situações, emoções e tranformações. Era um desafio bem interessante. Era um personagem com quem eu não me identificava. Isso só mudou quando vi a adaptação para o teatro. O ator era o Newton Bicudo, que é muito parecido comigo, e aí eu me enxerguei no personagem.
E a adaptação da trilogia em quadrinhos do detetive Diomedes para a televisão? Vai virar um filme ou uma série?
Série ele não vai virar. A Fox não teve interesse. E a HBO recusou há duas semanas, achou muito bizarro o universo. O projeto foi engavetado e talvez fique lá por muito tempo ou para sempre. É um projeto caro, com cenários em 3D e um trabalho de maquiagem trabalhoso, que respeitava a linguagem do meu desenho. Cada livro da trilogia viraria uma temporada. Compuseram até um tango psicodélico para a trilha. Todo mundo deu o máximo de si para que a coisa acontecesse, mas acho que não vai vingar.
A equipe envolvida no projeto já tem algum outro plano?
O produtor Rodrigo Teixeira comentou que o plano B era tentar viabilizar fora do Brasil. Teríamos primeiro que traduzir e publicar os quadrinhos nos Estados Unidos, para depois negociar uma série com alguma rede de tevê. É difícil, mas talvez seja possível. Não há nada certo. Por enquanto é só especulação.
Seu novo livro, ''A Arte de Produzir Efeito Sem Causa'' tem uma história mais amarga. Ele tem relação com a sua fase depressiva, que inspirou os primeiros quadrinhos?
Tem muito daquela época e também coisas que eu vivi e questionei depois, que não eram coisas muito agradáveis. Ele mistura duas épocas distintas. As pessoas que leram disseram ser um livro perturbador. Eu brinco, no mau sentido, com o poder das palavras. Foi um pouco inspirado no que pregava o Willian Burroughs, de destruir o verbo, destruir a palavra escrita. É uma história meio desesperançosa.
Você atua em literatura, quadrinhos, teatro e cinema. Qual a sua visão das artes e como você a expressa através destas mídias?
Quando eu fazia quadrinhos, levava muito tempo neste trabalho, não sobrava tempo para outras coisas. Depois de ''O Cheiro do Ralo'' surgiram outros convites, eu passei a trabalhar menos e assim pude me dedicar a outras coisas. Como minha arte tem muito de autobiográfica, quanto mais experiências eu tiver, mais material eu terei e mais rico o trabalho vai ficar. Eu quero continuar contando história, seja em quadrinhos, livros ou em qualquer outra área.


