Artista é considerado o primeiro a romper com o conservadorismo reinante no País
São Paulo, 14 (AE) - A falta de visibilidade dada à obra de Eliseu Visconti parece confirmar que não há nenhuma relação entre a importância de um artista e a badalação em torno de seu nome. Considerado um dos maiores nomes da pintura brasileira, cuja obra representaria uma espécie de passagem entre o academicismo oitocentista e o modernismo simbolizado pela Semana de 22, o artista praticamente desapareceu dos roteiros de exposições nas últimas décadas.
É bem verdade que museus, que possuem obras de sua autoria - como o Museu Nacional de Belas Artes (MNBA) e a Pinacoteca do Estado - as estão sempre mostrando em exposições de acervo, e que o artista é presença incontornável em eventos sobre a história da arte brasileira - como a Bienal do Redescobrimento, que incluirá obras suas. Mas o último registro de uma retrospectiva de seu trabalho data de 1966, tendo sido feita pelo MNBA em homenagem a seu centenário de nascimento.
Visconti nasceu na Itália, em 1866, e mudou-se para o Brasil com apenas dez meses. Entrou para o Liceu Imperial de Artes e Ofícios e foi aluno de importantes pintores do período, como Victor Meirelles. Foi um dos responsáveis pela criação do Ateliê Livre e pela modernização do ensino artístico. Em 1892, partiu para a França graças a um prêmio recebido no Salão dos Independentes, viajou por várias cidades européias - arregimentando uma série de prêmios, o que lhe teria garantido o apelido de "papa-medalhas".
Quando chegou à Europa, o impressionismo já estava arrefecendo. Mas aqui no Brasil ainda vigorava o conservadorismo sem graça dos acadêmicos. Conseguiu a façanha de classificar-se logo de cara, e em sétimo lugar, na Escola de Belas Artes de Paris e durante muitos anos dividiu-se entre a capital francesa e a brasileira. Só após o fim da 1.ª Guerra Mundial voltou a instalar-se definitivamente no País.
O crítico Mário Pedrosa, em um interessante ensaio sobre o pintor publicado em 1950 pelo "Correio da Manhã", aponta que é exatamente nessas temporadas européias que o artista parece desabrochar. "Se em Paris, se liberta; no Rio tende a aquietar-se", escreve, acrescentando que talvez isso se deva ao fato de que em Paris ele vivia mais isolado, "e por isso mesmo entregue a si mesmo, ao puro prazer de pintar por pintar".
Pós-impressionista, romântico, herdeiro de Botticelli ou influenciado pela art nouveau, Visconti desenvolveu uma obra de natureza bastante eclética. Ele próprio se definia como um pintor "presentista". "Sou um pintor que pinta o presente, a moda de sua época". Essa característica eclética não passa despercebida de Pedrosa.
O crítico chega a afirmar que o desenho de Visconti e alguns outros trabalhos, como a decoração que ele criou para o Teatro Municipal do Rio, são obras menores e vê com verdadeiro encanto apenas suas paisagens. "Visconti não é um plástico, é um sensualista da cor", define. No entanto, isso não o impede de concordar com o biógrafo de Visconti, Frederico Barata, quando este afirma que ele é o "marco divisório" da pintura nacional.
Ele - e não Almeida Júnior, como afirmou Sérgio Milliet - teria sido o primeiro a criar uma arte nacional. Enquanto Almeida Júnior teria se contentado em pintar o caipira usando a mesma linguagem acadêmica, Visconti teria conseguido desvencilhar-se dessa armadura e investigar a cor da paisagem brasileira numa rica investigação de problemas pictóricos como a luz e a inserção da figura humana na natureza.
"Eliseu Visconti veio ligar o passado ao futuro da história da nossa pintura", conclui Pedrosa, lamentando profundamente o fato de os modernistas não terem percebido a importância de seu legado, deixando de aprender lições essenciais com o mestre que, quando eclodiu a Semana de Arte Moderna, tinha apenas 55 anos e estava no auge de sua produção. "Tarsila, Di Cavalcanti, Portinari e outros, todos eles de talento, achariam talvez na obra viscontiana aquele senso de continuidade, indispensável a todas as revoluções". (M.H.)





