Alessandra Campos
Especial para a Folha2
A humanidade vai fechar o segundo milênio da Era Cristã sem saber ao certo qual é o verdadeiro rosto de Jesus Cristo. A imagem do filho de Deus do novo século mobiliza alguns dos melhores artistas plásticos do Brasil, desde que a poderosa Rede Globo de Televisão lançou a questão no ar em seu programa de domingo, na voz de Pedro Bial, no final do mês passado. Mas esta dúvida já intriga um pintor do Norte do Paraná há mais de três anos. Ricardo Laranjo Quadros, do curso de Artes Plásticas da Universidade Estadual de Londrina (UEL), até já criou aquilo que considera uma nova representação artística de Jesus.
Três de suas obras, da série intitulada ‘‘Jesus?’’, poderão ser vistas no 1º Salão de Artes Plásticas de Paranavaí, a partir do dia 23; outras estarão expostas no Salão de Artes da Bahia e, em São Paulo, uma de suas telas foi pré-selecionada para a exposição que vai comemorar os 500 anos do Brasil.
Laranjo começou a repensar a imagem de Cristo numa tarde de 96, quando lia o Velho Testamento. Em um dos trechos o livro dizia: ‘‘Não deveis cultuar imagens de pessoas e animais.’’ Isso chamou sua atenção e o fez pensar pela primeira vez na identidade de Jesus. ‘‘Se o Antigo Testamento nega a imagem, como podemos venerá-la? Cristo é muito mais que a simples imagem de um homem’’, considera.
Ele não acredita na imagem de Cristo e por isso Jesus nunca aparece como homem em suas telas. ‘‘Acredito em Jesus e tento mostrar sua existência em meus trabalhos. Mas não aceito a idéia de um homem de cabelos compridos e barbas longas. Essa imagem significa apenas uma representação criada há muitos séculos por outro artista, como eu. E não comprova que Jesus realmente tivesse esses traços e esse rosto. Michelângelo, por exemplo, chegou a pintar Deus, sem nunca tê-lo visto’’, diz.
Nas telas de Laranjo, Jesus sempre aparece através dos acontecimentos narrados na Bíblia. Assim nasceu a primeira tradução do artista para o Cristo do novo milênio, representada por uma grande cena épica da crucificação. ‘‘Mas não gostei desse primeiro trabalho e passei vários meses tentando aprimorar a idéia’’, conta. No final do ano passado ele se atirou de cabeça no processo de criação e, desde então, já pintou doze telas, além de vários esboços. Todas se baseiam na passagem bíblica chamada ‘‘Divisão das Vestes’’, narrada por Lucas. Nas pinturas, cada uma feita com movimentos e cores diferentes, quatro homens seguram um tecido nas mãos. ‘‘Outros sim, para distribuírem as roupas dele, lançaram sortes’’, diz Lucas (capítulo 23, versículo 34).
Como pano de fundo para as cenas que retratam a ‘‘Divisão das Vestes’’, Laranjo utiliza outras passagens bíblicas. Uma delas mostra o momento em que João Batista batiza seus fiéis. ‘‘João Batista dizia que viria um homem, depois dele, para nos batizar com fogo. Partindo desta idéia, joguei a tela no forno. Com a queima da tinta, a pintura marcou e dividiu o tecido, como um tabuleiro. Depois, passei a tela com um ferro de passar roupas, a estiquei e a preguei na madeira, representando a crucificação de Cristo’’, detalha.
Apaixonado por textos religiosos - a Bíblia não sai de cima da mesa de seu ateliê -, o pintor não parece preocupado com a possível reação de cristãos devotos e contrariados. E afirma que não pretende chegar a lugar nenhum com a polêmica que envolve a imagem de Jesus. ‘‘Esta é uma proposta que eu não sei aonde vai dar. Mas pretendo defender minha idéia até o fim. Não vou à igreja, mas sou cristão. E quero provar, com meu trabalho, que Jesus existe e pode ser visto de formas diferentes’’, afirma.Artista plástico concebe para Jesus um rosto que está longe da imagem do homem de cabelos compridos que a História consagrou
DivulgaçãoObra de Ricardo Quadros mostra Jesus, ao centro, com cabelos curtos e sem barba: um tipo diferente do que a arte clássica e a religião convencionaramMário CésarRicardo Quadros em seu ateliê: busca de um novo rosto para Cristo inspirado em passagens bíblicas

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