Artigos vetados revelam os bastidores da censura no regime militar
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quinta-feira, 12 de agosto de 1999
Por Renata Saraiva 
São Paulo, 13 (AE) - Por mais de dez anos, desde a edição do AI-5 até as vésperas da abertura democrática, um dos maiores esforços dos governos militares foi tentar esconder um mecanismo criado por ele mesmo para ocultar algumas mazelas de suas práticas políticas.
A existência da censura à imprensa nunca foi abertamente admitida por esses governantes, embora boa parte da população se lembre dos poemas de Camões no "Estado" e das receitas de bolo no "Jornal da Tarde", publicados em substituição a trechos ou artigos vetados pelas autoridades.
Uma tese, defendida em 1990 pela professora de História da USP Maria Aparecida de Aquino, e que acaba de ser publicada em livro, lança uma nova luz sobre esse período da história do Brasil. "Censura, Imprensa, Estado Autoritário" (1968-1978) (Edusc, R$ 25,00) é uma análise de como foi a prática da censura em dois jornais de perfis distintos. O "Estado", que se recusou a fazer autocensura - ou seja, a deixar de publicar textos sobre certos assuntos em função de recomendações governamentais encaminhadas por "bilhetinhos" ou telefonemas à direção de redação - e o semanário "O Movimento", que já nasceu para ser censurado - o número zero foi submetido ao crivo da Polícia Federal -, pois fazia parte da imprensa alternativa, que, entre outras coisas, se caracterizava por fazer críticas políticas e sociais contundentes.
Análise diferenciada - "Eu quis analisar o material censurado, diferenciando a pesquisa de outros estudos, que tinham como documentos apenas os bilhetinhos e os relatos de telefonemas", explica Maria Aparecida. Os dois órgãos preservaram boa parte dos textos censurados. "Conhecendo melhor as relações entre os jornalistas e os censores, foi mais fácil analisar o embate entre o Estado autoritário e a sociedade naquele momento", diz.
O primeiro sinal de resistência do "Estado" ocorreu no próprio 13 de dezembro de 1968, dia em que foi editado o AI-5. O editorial "Instituições em Frangalhos", escrito por Julio de Mesquita Filho, era uma advertência ao presidente da República, o marechal Costa e Silva, de que as instituições estavam por um fio, tendo como prova a derrota do governo na Câmara por ocasião da tentativa de aprovação de licença para processar o deputado Márcio Moreira Alves. O governo perdeu por uma maioria expressiva de votos, somando 70 da própria Arena, partido da situação.
Na noite do dia 13, quando o jornal já estava impresso, o general Silvio Correa de Andrade, delegado regional da Polícia Federal em São Paulo, tentou fazer uma negociação com Julio de Mesquita Filho, sugerindo a troca do editorial por outro que não comentasse a derrota do governo. Mesquita recusou-se a alterar o texto, afirmando que "competia ao Departamento de Polícia Federal, em São Paulo, o exercício da censura, uma vez que o "Estado" não podia se autocensurar". A represália foi forte. Todos os exemplares foram apreendidos e o jornal circulou, no dia seguinte, com a história de sua apreensão.
Deste primeiro episódio até o jornal tornar-se o único órgão de circulação diária nacional a ter a presença constante de um censor na redação, passaram-se quatro anos, durante os quais foi inevitável a autocensura. "A pedra de toque para a instauração do censor na redação ocorreu entre agosto e setembro de 1972", narra a historiadora. Era o governo Médici e começou-se a falar em Ernesto Geisel para a sucessão presidencial. "Os militares não queriam que se falasse na sucessão, muito menos que se citasse o nome de Geisel; mas o jornal inisistiu em tocar no assunto", explica.
O censor realizou seu trabalho nas redações do "Estado" e do "Jornal da Tarde" diariamente até 4 de janeiro de 1975, o dia do centenário do jornal. "Nesse período não houve um dia sem censura; e esta não admitia a explicitação da própria existência, exigia-se que se preenchessem os espaços deixados em branco pelos cortes", explica Maria Aparecida, que durante sete meses analisou 1.136 artigos censurados arquivados por iniciativa do jornalista Oliveiros S. Ferreira, diretor de redação no período da censura.
"As primeiras substituições foram feitas pela coluna de cartas dos leitores, que começou a aparecer em lugares inusitados; depois vieram poemas de diversos autores, até que se optou pela publicação de "Os Lusíadas", de Camões, que chegou a ser reproduzido duas vezes e meia", conta a professora. "A estratégia de resistência adotada pelo jornal foi extremamente inteligente, pois mostrava aos leitores que algo estava errado, embora cada presidente começasse e terminasse seu governo com um discurso democrata, afirmando que a censura não existia."
A censura realizada em semanários como "O Movimento". Por não se tratar de um diário, o material produzido durante a semana era levado à Polícia Federal, às vezes até em Brasília, para uma análise prévia. "Esse procedimento era ainda mais cruel, pois muitas vezes os jornalistas não sabiam quando o material voltaria, com que quantidade de cortes e se ainda daria tempo para imprimir no prazo", explica Maria Aparecida.
"O Movimento" nasceu em julho de 1975, seis meses após a retirada da censura do "Estado". Surgiu logo após a fase áurea do recrudescimento da ditadura, momento propício ao aparecimento de publicações oposicionistas. Teve em seu corpo editorial personalidades como Fernando Henrique Cardoso e Chico Buarque de Holanda e sofreu censura até junho de 1978, sendo um dos últimos a ser liberado."Esse jornal mostra que a própria censura permite o surgimento de uma nova forma de imprensa", observa Maria Aparecida.
Segundo dados do próprio "O Movimento", foram cortados 3.093 artigos na íntegra e 3.162 ilustrações. "Os censores sabiam com quem estavam lidando e, embora fosse comum nos dois jornais a censura de críticas à política nacional, em "O Movimento" também eram vetados comentários negativos sobre a entrada de capital estrangeiro no País, textos sobre a situação dos trabalhadores e outros."
Reclamações - Maria Aparecida Aquino não pode determinar o quanto o público leitor percebia as mensagens sutis indicadas no "Estado". Em uma entrevista concedida pelo jornalista Oliveiros S. Ferreira, ele lhe relatou que algumas vezes a redação recebeu cartas de leitores reclamando que as receitas de bolo publicadas no "Jornal da Tarde" não davam certo. "Hoje, porém, qualquer pessoa que tenha vivido aquele tempo associará os versos de Camões à censura."
De uma forma ou de outra, a tese da professora está aí, com tabulações de todo o material analisado, com porcentagens de que assuntos eram mais ou menos censurados e uma análise de como eram as relações entre a imprensa, a sociedade e o Estado autoritário. àtimo recorte sobre os anos de chumbo para as gerações que vieram depois.


