Curitiba - Desde que o trio formado por Jum Nakao, Kiko Araujo e Julio Dojcsar promoveu a destruição de roupas de papel em plena passarela do São Paulo Fashion Week, em 2004, muita coisa mudou no mundo das artes. Eles não inventaram moda, mas pode-se dizer que reinventaram a necessidade de questionamento.
Uma característica que eles mantiveram nos trabalhos seguintes e agora reúnem novamente numa exposição inédita, em cartaz no Museu Oscar Niemeyer, em Curitiba. A mostra Revolver retrata um tempo em que o conceito é ainda mais importante do que o resultado. Ou seja, ver a obra é bom, mas ler ou ouvir sua explicação - dada pelos próprios artistas - é ainda melhor ou, ao menos, uma saída.
Para quem perdeu a abertura, com a presença do trio, na última terça-feira, resta visitar a obra enquanto ela ainda existe. Explica-se. A mostra tem como ponto de partida o célebre desfile de 2004 e é formada por sessões. Em uma delas, réplicas dos vestidos de papel que as modelos levaram à passarela podem ser vistos em uma vitrine. O espectador também vai se deparar com fotografias, de modelos e de bonecas, durante os andares que levam ao olho do museu, dispostas ao lado de letreiros brilhantes que reproduzem a palavra (e mais uma vez o conceito) de simulacro e simulação.
Em uma outra sessão, também são colocados ''à venda'', pelo simbólico preço de R$ 199,00, embalagens de produtos com a 'logomarca' da exposição: um rato. ''Mas também podemos fazer promoções dos nossos produtos com outros valores. Afinal, quanto vale a arte?'', provoca o cineasta Kiko Araujo.
A mostra não acaba por aí e traz outro desafio. Talvez o mais saliente deles. Em uma maquete do ''olho'' do Mon foram colocadas miniaturas de bonecas vestindo as roupas de papel e que serão roídas por amáveis ratinhos durante o período da mostra. ''É o conceito da transformação'', como disse Nakao. Sobre a exposição e sobre trabalhos passados e futuros, ele falou à FOLHA2:
Fale um pouco sobre o embrião desse projeto - a exposição Revolver - e sobre sua parceria com o Kiko Araújo e o Júlio Dojcsar.
Nós temos esta parceria desde 2002. Quando surgiu o convite da Maristela Requião para que eu viesse expor no Museu Oscar Niemeyer, há dois anos, era para que eu desenvolvesse uma exposição da minha trajetória, dos meus trabalhos. Porém, ao invés de eu fazer uma exposição estática - porque eu acho que meu trabalho ainda está em obras - eu sugeri para que pensassemos em um mostra que dialogasse com o espaço, com o entorno da obra de Niemeyer, com a sua imponência, o seu vazio. Para isso criamos um projeto novo e específico para o espaço que tem como ponto de partida o desfile de 2004, em que as modelos rasgavam as roupas nas passarelas. Foi um desfile em que gastamos 700 horas de trabalho e meia tonelada de papel e tudo foi destruído no final.
Esse desfile foi um marco na sua carreira. Pretente algo semelhante com a exposição em cartaz?
Aqui criamos uma instalação imersiva para o espaço. Até a própria grafia está escrita de uma maneira concreta, que possibilita você ter ''n'' caminhos de leitura. É possível ler ''volver'', ''rever'', ''revolver'', ''lover'', que são possibilidades de percepção. Você estabelece para um mesmo objeto, vários caminhos. É como se nós estivéssemos, através deste trabalho, propiciando uma reavaliação, uma reflexão. Queremos instigar o espectador a descobrir, a desnudar a revelar e a questionar o que é arte, seus valores, o efêmero, a sociedade e a velocidade. É um trabalho, uma ferramenta, que está disposta como uma interface. A idéia é que o trabalho seja como um bom livro, onde você não lê preto sobre branco mas lê através. Você entra nas páginas. Queremos que as pessoas, durante o percurso da obra sejam transportadas para este universo.
Quanto tempo de trabalho foi gasto nesse projeto?
Um ano e meio. A parte mais trabalhosa, no entanto, foi a montagem, a conjunção. Como é um trabalho de competências complementares - tem pessoas que vieram do cinema, do teatro, das artes plásticas - tivemos que fazer várias coisas na montagem, como colocar as bonecas dentro da maquete. Uma operação delicada que podia colocar em risco todo o trabalho deste um ano e meio. Fora isso, a cada dia nos deparamos com um obstáculo a ser superado. Até porque é um trabalho que exigiu muito da nossa parte. Seria simples eu trazer uma retrospectiva, mas nós trouxemos uma coisa totalmente nova. Acho que é inerente ao criador assumir riscos. Neste trabalho assumimos uma série de riscos. Trabalhamos, por exemplo, com escalas diferentes. Você vai ver obras com 6 metros de altura e miniaturas hiperealistas, com 30 cm de altura.
E os ratos?
Na própria comunicação da mostra, os ratos estão sendo usados como um estencil, um grafite, que é para estabelecer esse link entre o espaço do museu e o espaço público. Eles servem como uma metáfora. O rato é um vírus, é uma praga, significa destruição. Ao mesmo tempo, o rato que nós escolhemos, é muito carismático. Ele vai precisar desgastar os dentes e o que resta a eles é roer as roupas das bonecas que estão lá dentro. O rato é também o agente que está propiciando a transformação da obra, que antes estava imaculada, perfeita, intocada. Ele vai dissolvê-la dos pés a cabeça até restar somente o nada. A obra vai, a cada dia se transformando.
Um conceito que você começou a trabalhar já no desfile de 2004... o que mudou depois disso, em você e na sua carreira?
Hoje eu trabalho mais com direção de arte. Na época, eu trabalhava com confecção e precisa de um momento de ruptura. Naquele momento decidi não mais me submeter a destituir meu trabalho de idealismo. Pensei: 'Ou eu faço da maneira que eu acredito, sobrevivo literalmente com dignididade dentro dos meus princípios e da minha ética ou prefiro parar, romper, rasgar'. O ato indicava tanto algo pessoal como algo para ser preenchido de significados pelo entendimento do público. Era um rasgo pra aposentar um questionamento de valores. Imagina você ser um escritor independente, um estilista independente. um músico independente, sem gravadora por trás. É um tanto quanto romântico, idealista e sonhador, mas eu prefiro ter essa postura. Se for de outro jeito prefiro não fazer.
Mas em seguida você foi trabalhar com a Rede Globo, que é antítese de tudo isso...
Mas o conteúdo do programa que eu trabalhei na Globo não era massificado (Nakao participou como figurinista da produção da série ''Hoje é dia de Maria'). Não era algo sem uma linguagem. Muito pelo contrário, foi quase um momento de suspensão da nossa realidade.
E quais são os próximos projetos?
O personagem de quadrinhos ''O Vira-Lata'' (de Paulo Garfunkel e Libero Malavoglia) vai se transformar num longa-metragem e fui convidado para fazer os figurinos e a direção de arte. É um projeto ainda, mas já aceitei trabalhar nessa produção. Também estou envolvido em outra mini-série que será exibida pela HBO. Eu já fiz uma participação inicial, que era dar um viés para alguns personagens, mas ainda não posso falar sobre isso..

SERVIÇO:
- Exposição Revolver, de Jum Nakao, Kiko Araujo e Julio Dojcsar
Quando - De terça a domingo, das 10 às 18 horas, até o dia 5 de agosto
Onde- Museu Oscar Niemeyer, na Rua Marechal Hermes, 999
Quanto- Entradas a R$ 4,00 (adultos) e R$ 2,00
Mais informações - Tel. (41) 3350-4400

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