São Paulo - A gravura em metal era a de excelência para o pintor gaúcho Iberê Camargo (1914-1994). Sua produção gráfica, feita concomitantemente à sua produção pictórica, é vasta, começou na década de 1940, quando o artista se mudou para o Rio, e foi realizada até o ano de sua morte, como se pode ver no primeiro volume de seu catálogo raisonné, lançado no ano passado pela editora Cosac Naify, dedicado à gravura de Iberê Camargo.
O artista produziu também litografias, serigrafias, algumas poucas xilogravuras, mas era por meio das técnicas do metal - principalmente, a água-forte e a água-tinta - que ele mais se entusiasmava a experimentar. Iberê usava grãos, tecidos, adorava a alquimia do processo feito pela corrosão de ácidos nas placas de metal. ''Era sua paixão, seu ateliê era um laboratório'', diz a historiadora e crítica Mônica Zielinsky, responsável desde 2000, junto à Fundação Iberê Camargo, pelo trabalho de catalogação de toda a obra do artista.
Mas é pouco apenas se prender à experimentação técnica do artista. Já que Iberê fazia pinturas e gravuras ao mesmo tempo, todo o processo de construção de sua linguagem e os temas de sua ''densa e dramática'' obra estão presentes nos dois gêneros. Dessa maneira, a mostra ''Gravuras de Iberê Camargo'', inaugurada ontem no Instituto Tomie Ohtake, contempla os mais diversos interesses. ''É uma exposição que acompanha de forma cronológica a experiência de Iberê. Sempre estamos fora do processo'', afirma Mônica Zielinsky, curadora da mostra.
Desde o lançamento do primeiro volume do catálogo raisonné de Iberê Camargo, esta é a primeira mostra de suas gravuras - agora Mônica está no processo de catalogação das pinturas do artista e, assim, os colecionadores que ainda não aderiram ao projeto podem entrar em contato por meio dos tels. (51) 3247-2666/3247-2940 e do e-mail [email protected]).
No Instituto Tomie Ohtake estão, em três salas, 38 gravuras, além de provas de estado, desenhos e matrizes. Na próxima terça-feira, no Museu de Arte do Rio Grande do Sul, em Porto Alegre, será inaugurada outra mostra sobre a obra gráfica de Iberê.
Apesar de no Rio Iberê ter feito muitas gravuras, a partir de 1942, inspiradas no Jardim Botânico, a mostra no Instituto Tomie Ohtake começa por uma seleção de naturezas-mortas - apenas uma delas, de 1954, é colorida. Essa escolha cria uma linha dentro da exposição. Aos poucos, a mesma mesa que serve de apoio para os jarros se transforma no apoio para os carretéis de madeira, signo emblemático na construção da linguagem de Iberê.
Como reforça a curadora, não importava a questão do ser figurativo ou não: com os carretéis, o artista experimentou e conquistou a forma a partir das ''leis da Gestalt que ele estava estudando'' - questões de alinhamento, de cheio e vazio, de movimento.
Na sala seguinte, está o auge de sua gravura: os carretéis que antes estavam sobre a mesa saem para o espaço, algumas vezes, sofrem uma transformação de suas formas até chegar à série que Mônica considera a melhor de Iberê, ''Estrutura em Movimento'', de 1962, formada por seis obras - são retângulos livres pelo espaço negro numa atmosfera ''densa e solta''.
Estão os ''Núcleos'' também, representando explosões - o paradoxo que querer ''segurar a vida, ele que não aceitava os limites do homem'', diz Mônica.
E, por fim, estão obras sobre os ciclistas solitários, sobre a mulher sentada - ''que espera a morte'' - e sobre o tema da figura humana com o manequim. São as obras feitas depois do episódio do assassinato cometido por Iberê por defesa. O artista, que foi preso, regressa para Porto Alegre e a carga de sua obra fica mais densa, com o peso maior da solidão.

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