Em 1971, quando Salvador Allende foi eleito presidente do Chile, seu ideal de construir um país socialista, mais humano e fraterno conquistou o coração de artistas de várias partes do mundo, que naquele mesmo ano abraçaram a idéia construída por uma ação internacional e doaram suas obras, com a intenção de ajudá-lo a montar um museu de arte para o povo.
Foi assim que teve início o Museu da Solidariedade Salvador Allende, sediado na capital chilena de Santiago e que hoje conta com um acervo de 2 mil obras. São principalmente pinturas, mas há também esculturas e gravuras, todas saídas das mãos dos mais importantes artistas daquela época, resultando, assim, em um rico panorama das artes plásticas mundial dos anos 60 e 70.
Agora, pela primeira vez, uma parte dessas obras é exibida fora de seu país, na exposição ''Estéticas, sonhos e utopias dos artistas do mundo pela liberdade'' que abre hoje no Museu Oscar Niemeyer, em Curitiba. Na mostra, o público pode conferir 130 das 2 mil obras, selecionadas, segundo o curador da mostra, Emanoel Araújo, de modo a representar o acervo total do museu e permitir uma visão geral da arte naquela época.
''Como é um acervo importante, mas não comprometido com um conceito estético ou de correntes estéticas, é bastante amplo. Tem obras surrealistas, abstratas, expressionistas, de correntes geométricas'', diz Araújo, explicando que a seleção consegue representar a pluralidade do acervo chileno. '' Estão representadas as diferentes correntes que puderam atualizar as obras artísticas chilenas, além de dar um novo alento visual à população'', completa.
A mostra conta com nomes fundamentais da arte moderna presentes em telas, esculturas e cerâmica. Frank Stella, pintor, gravurista e escultor americano, é uma das estrelas junto do também americano Alexander Calder, famoso por seus móbiles.
A Espanha está representada por Pablo Picasso, pelo pintor abstrato Lucio Muàoz e pelos artistas Juan Antonio Toledo, Rafael Solbes e Manolo Valdés, integrantes da Equipo Crónica. Da Catalunha há trabalhos de Joan Miró e de José Balmes, nascido em Barcelona, mas naturalizado chileno. Amigo de Allende e um dos primeiros artistas a doar um quadro para o Museu da Solidariedade, Balmes fundou com os novos compatriotas Gracia Barrios, Alberto Pérez e Eduardo Martínez Bonati o Grupo Signo.
Complementam a exposição representantes de vários outros países. Do Brasil, estão a escultora e pintora mineira Lygia Clark; o escultor carioca Sergio Camargo; o pintor paulista Antonio Henrique Amaral; e Franz Krajcberg, artista ecológico polonês, naturalizado brasileiro desde 1957.
O acervo do museu chileno começou em 1971, a partir de esforços de Allende. Mas a maior parte dos trabalhos foi doada depois de 11 de setembro de 1973, data em que Allende foi deposto pelo golpe militar de Augusto Pinochet. ''Teve um momento de solidariedade a Allende, depois de solidariedade ao museu'', diz o curador, lembrando que até hoje o País recebe obras em doação.
Papel importante na formação do acervo cabe a um brasileiro, o crítico de arte Mario Pedrosa, exilado no Chile pela ditadura brasileira na época, e foi eleito para presidir o Comitê Internacional de Solidariedade Artística ao Chile. O comitê era integrado por artistas, críticos de arte e diretores de museus de diversas capitais da Europa e das Américas e tinha a função de incentivar os artistas a doarem obras.
Outro personagem importante nesta arregimentação foi o poeta Pablo Neruda, então embaixador do Chile na França. Naquele tempo, muitos artistas internacionais exilados em Paris postaram seus trabalhos via embaixada chilena. Chegaram obras de 11 países, inclusive do Brasil, cujos artistas igualmente fizeram suas doações por meio da embaixada chilena em Paris.

SERVIÇO:
- Exposição do Museu da Solidariedade Salvador Allende - 'Estéticas, sonhos e utopias dos artistas do mundo pela liberdade'
Museu Oscar Niemeyer - Rua Marechal Hermes, 999
Quando - De hoje até 25 de novembro
Onde - Terça a domingo, das 10h às 18h
Quanto - R$ 4 (adulto) e R$ 2,00 (estudante). Crianças até 12 anos e maiores de 60 anos não pagam.

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