Em suas mãos, a nudez feminina é a revelação mais ardente da própria arte. O artista de ascendência romana e calabresa ao imigrar para o Brasil, ainda na adolescência, ocupa a galeria dos grandes pintores brasileiros. Enrico Bianco a um só tempo seduz pela exibição nas suas telas do corpo e a alma de um país que aprendeu a amar, como pela confessional maneira com que alimentou esse bem-querer em toda a sua obra.
Homem que soube dosar as carícias das cores nos desenhos de mulher, amou pintar as paisagens, natureza morta e cenas do campo.
O trabalho, a vida e os costumes da sociedade brasileira também revelam toda a exuberante atração, que exerceram sobre o artista.
Aos 90 anos de idade, as mãos de Bianco têm os traços do próprio caminho, que encontrou nas artes plásticas, mas também carregam a influência de Cândido Portinari - mestre que conheceu no Brasil, integrando a equipe do artista por 18 anos.
Bianco é o entrevistado de Ana Barreto, no programa ''A Arte de Receber'' hoje, às 22 horas, na Multitv. A marchande, que já entrevistou a estilista e escritora Gloria Kalil, entre outros, explora o universo da vida e obra do artista plástico que sempre foi envolto num zelo de privacidade.
O romano, que chegou às artes plásticas com o incentivo dos pais, o jornalista e escritor, correspondente internacional do Jornal do Brasil, Francesco Bianco, e da pianista Maria Bianco-Lanzi, se retira sempre em suas reminiscências de quase um século de vida, indo aos primeiros anos no casarão em que morou na Itália, ouvindo a mãe executar um noturno de Chopin, enquanto rabiscava o futuro como pintor.
Uma obra esculpida ao longo dos anos pelo casal Bianco, que pôs o filho entre mestres da arte, como Deoclécio Redig de Campos, um brasileiro que poucos sabem é na história dos Museus do Vaticano, um dos maiores estudiosos de Rafael e Michelangelo.
Sob a direção de Campos, o Museu do Vaticano restaurou afrescos e, inclusive, a Pietà, uma das mais famosas obras de Michelangelo que nos anos 1970 foi atacada a marteladas por um vândalo.
No Brasil, o encontro de Bianco sempre com grandes mestres colocou-o ao lado de Portinari.
Um encontro que começou com a sugestão do pintor Paulo Rossi para que visitasse uma obra que Portinari estava fazendo para o Ministério da Educação. Ele atendeu à recomendação, mas no local somente encontrou três assistentes do artista. Um deles era Burle Marx.
Ao perceber a dificuldade dos três com a ampliação, em um afresco, da mão de um garimpeiro, Bianco pediu que o deixassem tentar.
Bianco pintou sozinho o detalhe. Ao chegar, Portinari percebeu a interferência, perguntando com irritação quem tinha feito aquela mão. Os discípulos disseram ser Bianco, a quem o mestre, aparentemente, não deu atenção.
Ao se despedir de Portinari, depois de ficar algumas horas apreciando o trabalho, a afeição do mestre estendeu as mãos a Bianco, que disse ao jovem:
''Amanhã você volta, não volta?''

SERVIÇO:
- Entrevista com o artista plástico Enrico Bianco
Quando - Hoje, às 22 horas
Onde - Programa ''A Arte de receber'', de Ana Barreto, na Multitv, canal 20

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