Não há uma criança que não se encante com as magias do circo. As gargalhadas, os risos tímidos e até o choro medroso estampam as reações dos pequenos, sentados na arquibancada a admirar o espetáculo. O palhaço, o malabarista e o trapezista roubam olhares atentos da platéia. O circo proporciona alegria, fantasia e emoção para o lado de fora do picadeiro. Mas quando apresenta a arte a uma criança, mostra a outra face mágica do circo: a do artista.
Durante quase duas semanas, 48 estudantes com faixa etária de 7 a 14 anos participaram do Projeto de Maio do Filo ‘‘Oficina de Circo’’, com os artistas Denise Wal e Jailton Carneiro, da Central do Circo, de São Paulo. Ela é artista do picadeiro há seis anos e desde 2.000 participa do Circo Nosotros junto com Jailton, que está na carreira há 12 anos. Ambos trabalham com crianças de periferia na Grande São Paulo e fazem parte da Central do Circo, uma associação de quatro grupos (Nosotros, Linhas Aéreas, Circo Mínimo e La Mínima), que serve como referência, integração e intercâmbio circense.
Os alunos da oficina fazem parte do projeto Núcleo de Convivência do Centro Social Urbano, da Secretaria Municipal da Ação Social – parceria do Filo. Observados por duas monitoras do projeto, os participantes desenvolveram um trabalho de iniciação ao circo, com técnicas de acrobacias, pirâmides, mini-tramp, malabares (aros, bolas, claves, lacinhos e pratos), tecido, corda indiana, trapézio e pernas de pau. O resultado será apresentado amanhã, às 15 horas, no ginásio da Afugel, para familiares, convidados e público em geral.
Trabalhar com jovens de periferia é uma tarefa que Denise Wal e Jailton Carneiro encaram como desafio, mas com muita relevância. ‘‘Dá prazer lidar com esses adolescentes porque eles são mais abertos a experiências e, por isso, desenvolvem mais as habilidades’’, constata Denise Wal. ‘‘Como gostam do que fazem, se dedicam ao máximo e os resultados chegam a ser surpreendentes’’.
Para Denise, o trabalho de picadeiro com crianças sempre é muito proveitoso. ‘‘O circo desperta certas coisas muito boas para elas. Agora, por exemplo, os alunos aprenderam a lidar com a disciplina. Foi uma mudança considerável do início até o final da oficina’’.
O grupo apresentou revelações na arte circense, em especial nos exercícios no tecido, nos saltos e nos malabares com bolinhas. Três dos alunos, moradores da Vila Marísia, mostraram grande empenho, o que lhes rendeu um envolvimento maior nas atividades. Ezequiel, de 13 anos, pode não saber lidar tão bem com as palavras como faz com os tecidos. Nas alturas, a habilidade responde por ele. Tímido, confessa ter ficado pouco à vontade antes de participar da oficina. Com a experiência, Ezequiel passou a acreditar em uma possibilidade: o circo pode mudar sua vida.
Giovana, 14 anos, gostou mesmo da corda indiana e também acha que um caminho é se profissionalizar no circo. ‘‘Foi legal porque nenhum de nós tinha feito isso e agora aprendemos uma coisa nova’’. Assim como ela, Aparecida, de 13 anos, tem a expectativa de continuar com as atividades. No ano passado, a garota participou da outra oficina de circo no Filo, fato que a motivou a voltar para uma nova experiência. ‘‘Queria que continuasse. Depois que acabou o curso no ano passado, não fizemos mais nada. Só estrelinha no campo de futebol para treinar’’, conta.
Quanto à continuidade do projeto, Denise Wal argumenta que é preciso um acompanhamento para a formação de oficineiros. ‘‘Existem em Londrina pessoas que dão aulas e podem se aprimorar para acompanhar as crianças’’, afirma. ‘‘Acho fundamental dar a elas uma possibilidade de profissão. O Jailton (Carneiro) é um grande exemplo disso. Ele veio da Escola Picolino e do projeto Axé (na Bahia), que trabalhava com jovens da periferia’’, explica.
Apresentação do resultado da Oficina de Circo ministrada por Denise Wal e Jailton Carneiro, da Central do Circo (SP). Amanhã, às 15 horas, na Afugel (Associação de Funcionários da Grande Londrina – atrás da garagem da TIL).

mockup