Há 33 anos, Londrina recebia uma missão alemã que vinha para a cidade trabalhar com comunidades carentes. Inicialmente, a idéia era construir casas. Entre os membros da missão estava uma tradutora, Ute Craemer, que a princípio não sabia o que fazer no Brasil. ‘‘Eu queria apenas ter uma experiência fora da Alemanha, em qualquer país’’, lembra.
A vida de Ute passou por uma transformação depois do contato com o povo londrinense. Descobriu, além da hospitalidade, a pobreza. Mudou de país, de profissão, e hoje coordena a Associação Comunitária Monte Azul, um projeto que está transformando favelas paulistanas em modelos de gestão comunitária. Neste último final de semana, Ute voltou a Londrina para partilhar sua experiência na Monte Azul com outros projetos que utilizam as artes cênicas para mobilizar e integrar as pessoas em busca de uma realidade e de um novo cidadão. Ela participou do 2º Encontro de Projetos Cênicos realizado pela Mostra Regional/Nacional Universitária do Festival Internacional de Londrina (FILO).
Depois de passar dois anos trabalhando com crianças na Vila da Fraternidade, Ute voltou para Alemanha para estudar Pedagogia Antroposófica, já com o firme propósito de voltar ao Brasil. Três anos depois ela realizava seu sonho. No Brasil, foi lecionar na Escola Rudolf Steiner, que trabalha com a Pedagogia Antroposófica. Com sua experiência com crianças carentes em Londrina, ela logo percebeu que aqueles alunos da escola particular de São Paulo não tinham consciência da verdadeira realidade brasileira. Desta percepção e da proximidade com a favela, nasceu o projeto Associação Comunitária Monte Azul, inicialmente um intercâmbio entre as crianças e hoje uma referência nacional em gestão comunitária. Com duas décadas de trabalho, o projeto oferece a seus moradores, gratuitamente, saúde, educação, cultura e lazer.
A ligação de Ute com Londrina é bastante próxima. Na cidade, ela teve seu primeiro contato com o mundo infantil, carente de comida, educação e de formas de expressar sua cultura; um mundo que definitivamente faria parte da sua própria realidade. ‘‘Todo ano visito a cidade, porque mantenho laços de amizade e batizei uma criança da comunidade’’.
Além disso, sua instalação em São Paulo levou à capital paulista alguns londrinenses, que foram em busca de estudo ou trabalho. Em determinadas épocas chegou a abrigar 14 pessoas em sua casa. Um deles hoje é o diretor do grupo de dança da Monte Azul.
Em Londrina, Ute não perdeu a oportunidade de visitar novamente a Vila da Fraternidade, onde reencontrou os amigos e pôde ver as melhorias que o bairro recebeu. ‘‘Hoje existe infra-estrutura, mas os jovens continuam perdidos’’, diz ela, argumentando que falta trabalhar com a cultura dessa comunidade.
Ute Craemer espera voltar à cidade e trazer para outros encontros um pouco mais da sua experiência com comunidades carentes.

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