Rostos ansiosos, mãos, bocas e pés inquietos, mas é preciso esperar a porta do teatro abrir. Enquanto isso mais crianças vão chegando. Na entrada do Teatro Ouro Verde, algumas pessoas param para olhar o aglomerado de estudantes, cerca de 400, que esperam a apresentação da peça ''O Rouxinol e a Rosa'', da Companhia Arte Mídia de São José do Rio Preto (SP). Elas vêm de várias escolas da cidade e região, têm entre 4 e 12 anos e quase não conseguem se conter dando muito trabalho às professoras que tentam mantê-las em fila.
Entre os estudantes estão os da 4 série da Escola Municipal Padre Anchieta, de Londrina, que ganharam os ingressos por meio de uma parceria da FOLHA com os promotores da peça. A maioria nunca esteve em um teatro, um deles pergunta se dentro do teatro há cadeiras. Nathália Eduarda Moraes de Barro conta que uma vez viu uma peça no shopping, mas nem se lembra mais da história. ''Faz muito tempo, mas gostei e agora que surgiu a oportunidade não ia perder de jeito nenhum. Espero que a história seja bem legal .''
As portas se abrem e as professoras tentam controlar a entrada no teatro; com os menores funciona, já os maiores assim que chegam às escadas correm para todos os lados tentando encontrar um lugar que considerem melhor. Aos poucos vão se acomodando e passam a observar o teatro, o cenário e os colegas. Laura Mariana Rodrigues de Freitas, 10 anos, olha para os lados e comenta com a colega Barbara Araújo de Souza, 10 anos, sobre a beleza e conforto das cadeiras. As duas querem olhar tudo, ao mesmo tempo em que tentam identificar de onde vêm as músicas com temas infantis que tomam conta do ambiente - aos poucos os olhos vão se acostumando à semi-escuridão e elas identificam o operador de som atrás da última fileira de cadeiras.
A ansiedade começa a tomar conta de todos e os mais velhos ensaiam o coro de ''começa, começa'', as professoras tentam controlá-los, mas é impossível. As luzes diminuem e os gritos aumentam, o técnico pede silêncio para que o espetáculo possa começar. Em meio a rosas amarelas e brancas surge um rouxinol entoando seu delicado trinado, os rostos se iluminam, alguns sentam na beirada da cadeira para poder acompanhar melhor, o corpo todo se posiciona de maneira a não perder nenhum detalhe.
A história de um estudante que precisa de uma rosa vermelha para poder dançar com a amada e é auxiliado em sua busca por um rouxinol é acompanhada com atenção. O rouxinol quer mostrar ao estudante a importância do amor, mesmo que para vivê-lo de forma plena sejam necessários sacrifícios. Laura e Bárbara acompanham atentas os movimentos do pássaro e sua tentativa de mostrar ao estudante como o amor e a arte podem tornar a vida mais feliz, além da importância da amizade e do respeito.
Os atores prendem a atenção dos pequenos espectadores com alguns truques de mágica que provocam muitos aplausos e expressões de reconhecimento dos shows normalmente vistos nos circos e também na televisão. As músicas também pontuam o espetáculo e fascinam as criancas, que, quando conhecem a letra, cantam junto. Um momento em que elas se soltam, cantam e batem palmas ocorre quando o rouxinol conta ao estudante que os vagalumes vêm visitá-lo todos as noites. O refrão ''vagalume tem, tem, seu pai está aqui, sua mãe também'' é acompanhado por todos, inclusive as professoras que lembram da infância e das brincadeiras com os amigos. Laura e Bárbara ficam na ponta da poltrona, batem palmas e cantam com toda a força a música que conhecem das brincadeiras com os amigos nas ruas do bairro.
Os rostinhos vão alterando expressões de alegria, tristeza, reconhecimento, preocupação no decorrer da história e ficam ansiosos quando o rouxinol descobre que a única forma de conseguir uma rosa vermelha é produzi-la em uma noite de luar com o sangue de seu próprio coração. As crianças olham preocupadas para os amiguinhos ao lado e cochicham sobre o destino do pássaro de canto melodioso e coração bondoso.
Na cena em que o lindo e pequeno pássaro encosta a rosa marrom em seu peito e com o sangue de seu coração a tinge de vermelho Laura e Bárbara ficam com os olhos cheios de lágrimas. Obervando os rostinhos se percebe a emoção, os pequenos mostram abertamente a tristeza, os maiores tentam disfarçar mas nota-se o sentimento. Ao final o estudante não consegue dançar com a amada que se mostra egoísta e interesseira, dizendo a ele que ganhou jóias de um outro pretendente e que jamais as trocaria por uma rosa.
Esquecendo o sacríficio feito pelo rouxinol para conseguir a rosa vermelha, o estudante a joga fora sem o menor sofrimento e ainda reclama que o amor é uma bobagem que não serve para nada, mas as crianças parecem compreender a mensagem do pequeno pássaro.
Laura e Bárbara ao final do espetáculo dizem ter gostado muito, e os rostinhos demonstram esse contentamento. ''Gostei muito e aprendi que a gente não deve querer tudo para gente, não pode ser egoísta'', diz Laura. A amiga completa dizendo que o amor é importante na vida das pessoas, mesmo que às vezes seja preciso fazer sacrifícios.

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