ARTES CÊNICAS - Um novo modo de fazer teatro
PUBLICAÇÃO
sábado, 14 de outubro de 2006
Katia Michelle<br> Equipe da Folha 
Curitiba - O teatro está mudando. O papel do ator e do diretor já não é mais o mesmo. O diretor deixa de ser a figura autoritária, que determina a direção do espetáculo, para dar espaço para atores colaboradores. Atores que, em conjunto, constroem a montagem, seja quando ela já tem um texto pré-definido, seja quando o texto surge depois de um longo processo de pesquisa e estudo. Isso se chama teatro colaborativo. Não se trata de uma nova modalidade do fazer teatral, mas de uma realidade que está mudando a cara do teatro contemporâneo. Uma necessidade histórica que já está sendo vivida por grupos de peso no cenário nacional.
A Cia Senhas, de Curitiba, trabalha com esse formato desde a criação da companhia, em 1999. De lá para cá já foram dezenas de espetáculos, reconhecimento nacional e prêmios em diversos festivais. Com ''Devorate-me'', por exemplo, recebeu sete indicações ao Troféu Gralha Azul, e foi premiada nas categorias de Composição Musical e Figurino.
Agora a companhia está montando ''Antígona''. A peça que Sófocles escreveu há 2.500 anos exalta a coragem de uma mulher que enfrenta um rei tirano e está sendo trabalhada pelo grupo dentro da realidade atual. A montagem começou a ser desenhada em março e antes mesmo da estréia, agendada para novembro, a companhia apresenta ao público a mostra do processo de trabalho. Para o grupo, esse contato com o público antes da estréia oficial integra a metodologia do teatro colaborativo. Sueli Araújo, que assina a dramaturgia e encenação do espetáculo falou à Folha2 sobre esse processo. Acompanhe.
Fale um pouco sobre o teatro colaborativo. O que isso significa?
Esse tipo de teatro acontece quando todos os participantes têm o mesmo peso na construção do espetáculo. Quando a organização do espetáculo se dá com a responsabilidade de todas as pessoas que vão participar. Esse é o princípio desse teatro: a responsabilidade do grupo na construção da montagem.
Isso acontece desde a escolha do texto do espetáculo? Onde esse processo começa e termina?
Começa na escolha do texto, também. Por exemplo, estamos trabalhando com ''Antígona'' agora, que é um projeto que começou há cinco anos. Nós temos a matriz, que é o texto, mas tudo a partir daí será decidido em conjunto. Todo o percurso. As descobertas vão sendo construídas conjuntamente dentro do processo. As nossas descobertas mostram novas necessidades e essas necessidades vão sendo sanadas. É nesse processo que o espetáculo é construído.
Você já trabalhou com diversos tipos de direção, desde a mais convencional, em que o diretor dá a linha do espetáculo, até esse processo colaborativo, que marca as montagens da Cia Senhas. Quais são as diferenças e as vantagens dessas duas propostas?
Eu acho que dentro do trabalho colaborativo, as funções precisam ser determinadas. A minha função é a de dirigir o espetáculo. Eu sou aquela pessoa que organiza o espetáculo, quer seja numa situação em que já se tem o texto, quer seja num espetáculo como ''Antígona'', em que vamos descobrindo o texto juntos. Acho que a discussão principal é sobre a função de cada um no espetáculo. Em um trabalho colaborativo, o diretor precisa identificar o que os atores estão dizendo na criação. A identificação desse material e a organização dele num espetáculo teatral são fundamentais, seja no processo em que os diretores vêm com as coisas formatadas ou quando as coisas vão se formatando ao longo do processo.
É mais difícil trabalhar assim?
É mais trabalhoso. Exige mais tempo. A demanda é muito maior e cada coisa você precisa discutir muito. Você trabalha com o caos. Você não tem nada. Absolutamente nada no princípio e quando os atores começam a criar, é preciso entender aquele discurso que está ali e se isso interessa ou não para o espetáculo. Isso demora muito tempo. Porque se trabalha com 'insight' dos atores, com percepção. Nesse espetáculo em questão, estamos trabalhando desde março. Primeiro foi necessário encontrarmos um vocabulário comum, do que é analogia, do que é abstração, porque são muitos os conceitos que existem sobre isso. Mas nós precisamos encontrar um conceito cênico, uma linguagem que todo mundo consiga entender.
Você considera que essa forma de trabalho constitui uma mudança na história do teatro contemporâneo ou são grupos pontuais que estão trabalhando dessa forma?
Eu acho que é uma mudança. Veja, tem a história da formação dos grupos. Até a década de 70, a figura do diretor não era tão forte e todos organizavam os espetáculos conjuntamente. Mas então vem toda a ditadura e esses grupos se desfazem e depois vem a figura do diretor, que fica mais saliente. O ator passa a ser um instrumento do diretor. Não era um criador não precisava pensar... Então depois dessa fase áurea dos diretores, acho que surge uma reivindicação dos próprios atores, que passam a ser 'performers', que começam a organizar a cena e pensar na cena e entender a articulação que eles podem fazer. Eu acho que nesse momento existe uma reorganização de um fazer teatral menos hierárquico, do que na década de 80 e 90, quando o diretor era soberano, porém mantendo mais claras as funções. A gente quebra a história da hierarquia, define as funções para que se realize um espetáculo onde o ator resgata sua voz como criador, que tem participação ativa do espetáculo. Ele se abona do espetáculo, o que é bem diferente de antes, onde o ator era completamente alienado desse processo. Acho que essa alienação tem diminuído e o ator está cada vez mais presente na cena. Aí muda tudo. Muda o perfil do teatro. Muda o modo de produção e a realidade da cena teatral, porque há necessidade da criação de grupos. Porque essa realidade só acontece em grupos. A descoberta de uma linguagem só se organiza dentro da intimidade de um grupo.
Falando especificamente do espetáculo. As pessoas não vão ver o ''teatro grego'' ali, nem o texto convencional de ''Antígona''. O que as pessoas vão ver?
Quando escolhemos ''Antígona'' pensamos: ''O Sófocles é homem, né?'' (risos), mas olha só como ele viu as mulheres. Antígona só queria falar que ela era contra a guerra e se ela tivesse sido ouvida, um minuto, poderia ter alterado aquela realidade. O público vai ver isso, uma discussão, a idéia de uma mulher que tenta ser ouvida, e que desde a Grécia até os dias de hoje não consegue. O discurso dela é ser contra a guerra. É uma tragédia, mas é uma tragédia contemporânea. Acho que as mulheres continuam sem serem ouvidas direito.


