Curitiba - Não é apenas um espaço. Cada prédio batizado com um nome pessoal traz também um pouco da história do personagem homenageado. O Auditório Bento Munhoz da Rocha Netto, por exemplo, o maior teatro do Estado mais conhecido como Guairão carrega nas suas entrelinhas peculiaridades desconhecidas pela maioria do público que frequenta o local. Nascido como Theatro São Theodoro, em 1884, o local chegou a ser transformado em prisão política durante a Revolução Federalista e foi demolido em 1939 por não apresentar condições de segurança. Na década de 50, o governador Rocha Netto decidiu investir na construção de um novo teatro. O espaço foi inaugurado apenas em 1974, na Praça Santos Andrade, depois de um trágico incêndio, mas o esforço do político foi reconhecido e seu nome batizou o maior auditório do Teatro Guaíra.
Embora pouca gente conheça a história do homem que dá nome a um dos três auditórios do prédio, o teatro é famoso em todo o País e já recebeu inúmeras atrações nacionais e internacionais. Uma onda de teatros inaugurados com nomes de pessoas bem atuantes na área, no entanto, está mudando essa realidade. Nos últimos dez anos, Curitiba viu surgir pelo menos uma dezena de salas teatrais cujos produtores homenageados expõem seus trabalhos no próprio espaço. O mais novo deles é o Teatro Edson Bueno, que inaugura hoje.
Um dos diretores mais conhecidos na capital, Bueno é responsável pelas direção das peças mais memoráveis dos últimos anos, como a excelente ''New York'', de Wil Eisner, na década de 90. Agora, ele não só empresta seu nome ao empreeendimento como também leva seu grupo, o Delírio, criado em 1984, para ensaiar e encenar no local. O teatro localizado bem no centro da cidade, na praça Tiradentes, funcionava há um ano e meio como Teatro da Companhia, onde antes era um cinema. A diretora do espaço, Rosangela Craveiro decidiu convidar Bueno para trabalhar no espaço e acabou homenageando o diretor e propondo que o espaço reinaugurasse com o nome dele.
''Eu não tenho vaidade em relação a isso. Para mim é mais um desafio de fazer com que o teatro tenha personalidade. Quem vem aqui deve saber que vai ver um espetáculo com a cara do grupo Delírio'' , diz o diretor. Para a reforma, a equipe contou com o apoio e patrocínio da iniciativa privada. ''Não tivemos lei de incentivo nem apoio da prefeitura ou governo, 80% da reforma foi custeada por meio de parcerias'', conta. Além de Bueno, outros diretores e produtores também emprestam seu nome para um espaço cultural.
No ano passado, a atriz, diretora e produtora Regina Vogue, 60 anos e 45 de carreira, ganhou o Teatro Regina Vogue. Uma iniciativa do empresário Miguel Krigsner, do Grupo Boticário, que também comanda o Shopping Estação, onde o teatro está localizado. ''Até agora a ficha não caiu'', diz Regina sobre a homenagem. Ela lembra que no começo dos anos 2000 procurou o empresário em busca de patrocínio para uma de suas produções. Conversa vai, conversa vem, Krigsner perguntou se a diretora não gostaria de administrar um teatro. ''Eu disse que era um sonho meu, mas não sabia que estava perto de ser realizado e nem que o espaço teria o meu nome'', ressalta Regina.
O teatro foi inaugurado em 1º de abril do ano passado. A diretora faz uma balanço desse primeiro ano de funcionamento: ''Muita coisa mudou. As pessoas me respeitam, conhecem o meu nome, mas o que esperava não aconteceu'', lamenta. Para ela, a projeção do seu nome iria ajudá-la também na conquista de novos patrocínios para suas produções. ''Nesse quesito, infelizmente nada mudou. Continua muito difícil produzir um espetáculo'', diz.
A atriz e diretora Marina Machado, que há oito anos inaugurou um teatro com seu nome revela que encontrou uma alternativa para driblar a crise que assola a maioria dos espaços independentes. ''Eu inventei meu próprio método e dou cursos de teatro e oratória que sustentam o espaço'', conta. Ao contrário dos diretores que foram homeageados, Marina revela que ela mesmo, e seu marido, decidiram colocar seu nome no teatro. ''Eu sempre quis ter um espaço cultural e meu marido resolveu investir no teatro e dar o meu nome a ele'', conta.
Curitiba ainda tem o Teatro Odelair Rodrigues, que homenageou ainda em vida a atriz que morreu o ano passado; o teatro Rodrigo D'Oliveira e Edson D'Ávilla, que homenageam atores e diretores aturantes em Curitiba; o Teatro Lala Schneider, um tributo do diretor e ator João Luiz Fiani à atriz paranaense Lala Schneider e espaços que levam o nome de atores globais, como o Teatro Paulo Autran e o Teatro Fernanda Montenegro.
Serviço:
- Inauguração do Teatro Edson Bueno hoje, às 20h30, com ensaio aberto do espetáculo ''Metamorphosis'', de Franz Kafka, que estréia no Festival de Teatro de Curitiba.

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