ARTES CÊNICAS - Teatro tipo exportação
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quarta-feira, 29 de dezembro de 2004
Jackeline Seglin<br> Reportagem Local 
Londrina ainda era menina quando ganhou seu primeiro grupo de teatro. Tinha nada mais que 23 anos. A terra começava a provar que não era somente boa para a cultura do café, mas tinha muito o que produzir nas artes. Em 1957, a cidade via nascer o GPT Grupo Permanente de Teatro, fundado por Roberto Koln e Antonio Vilela de Magalhães.
Quarenta e sete anos depois, Londrina, uma jovem senhora, comemora suas sete décadas firmando-se como referência teatral no Brasil e exterior. Nesses anos todos, a cidade abrigou grupos, artistas e eventos que espalharam pelos quatro cantos do mundo o seu nome, crescendo como uma terra ''fazedora'' de teatro.
Centenas de grupos independentes e artistas fizeram a história do teatro londrinense. Os lendários Delta e Proteu, já extintos, tiveram carreira internacional sob direção de José Antonio Theodoro e Nitis Jacon, respectivamente, e marcaram época com montagens como ''Toda Nudez Será Castigada'', ''ZYDrina'' e ''Bodas de Café''.
No início de sua carreira nos anos 70, o compositor Itamar Assumpção (1949-2003) também fez parte da história do teatro londrinense ao participar da montagem ''Gruta Conta Tiradentes''. O escritor Domingos Pellegrini, vencedor de importantes prêmios nacionais de literatura, já escrevia peças de teatro para grupos locais.
Hoje, a cidade tem o mais antigo festival de teatro independente do país, com quase 38 anos. Tem uma Escola Municipal de Teatro e um Curso de Artes Cênicas na Universidade Estadual de Londrina. Tem um programa municipal de incentivo à cultura, que nos últimos quatro anos financiou cerca de 100 projetos na área de teatro, desenvolvidos em sua maioria por produtores independentes. No auge da efervescência teatral, em meados da década de 80 e início de 90, Londrina chegou a abrigar mais de 20 grupos. Hoje, são poucas as formações com mais de 10 anos de existência que continuam investindo na paixão pelo palco.
É que essa paixão também conquistou um caráter profissional e, junto disso, a necessidade de novos campos de atuação. Grupos e artistas ganharam a estrada. E nesse panorama do teatro nos 70 anos da cidade, representantes da arte londrinense aparecem marcando terreno em outras paragens.
Mário Bortolotto, ator, dramaturgo, diretor e fundador do grupo Cemitério de Automóveis (hoje radicado em São Paulo), é um nome de destaque no cenário teatral brasileiro. O grupo acaba de estrear na capital paulista o espetáculo ''O Que Restou do Sagrado'', peça escrita e dirigida por Bortolotto. Para ele, Londrina dá uma formação muito boa para seus artistas, que saem preparados para encarar o que vier pela frente.
''Venho de uma época que o Festival de Teatro era muito forte. Ainda continua legal. Eu cresci participando do festival e isso ajudou muito na minha formação. O jornalismo cultural da cidade também era muito forte e tudo isso contribuiu. Quando se fala de Londrina aqui fora é sempre o maior respeito'', declara.
Outro exemplo de arte exportada de Londrina é a da Armazém Companhia de Teatro, que tem um trabalho firmado e reconhecido no Rio de Janeiro. Dessa trupe fazem parte as atrizes Patrícia Selonk e Simone Mazzer, ganhadoras de prêmios e aplausos pelas suas atuações. A companhia é dirigida por Paulo de Moraes, parceiro na dramaturgia de um outro londrinense que desponta nesse mapa: o escritor Maurício Arruda Mendonça, cujos textos para teatro, poesia e literatura têm alcançado terreno no Brasil. O último estreou recentemente no Rio, com a própria Armazém: ''A Caminho de Casa''.
Na opinião de Mendonça, a principal característica do desenvolvido em Londrina é que a cidade sempre dialoga com o que se faz nos grandes centros, como São Paulo e Rio de Janeiro, aos quais os artistas locais estão mais diretamente ligados. ''Isso faz com que as pessoas tenham um rigor estético capaz de ser levado para outros lugares. A trajetória de grupos como o Cemitério de Automóveis e Cia. Armazém mostra que eles são abertos a esse diálogo'', diz. Para o escritor, o fato da cidade ser um pólo universitário abre as portas para pessoas e experiências novas. ''Esse choque cultural resulta artisticamente em uma fórmula interessante''.
O jornalista e escritor Marcos Losnak também vem projetando sua dramaturgia no País. Uma de suas peças foi encenada pelo grupo carioca Intrépida Trupe. Ainda no Rio de Janeiro, o ator Adriano Garib tem realizado importantes trabalhos no teatro e na tevê, além de dar aulas na Casa das Artes de Laranjeiras (conhecida como Cal). Nos últimos tempos ele atuou no teatro ao lado de nomes como Paulo Autran, Paulo José e Mateus Natchergaele. Em São Paulo, o ator Rodrigo Fregnan, formado pela Escola Municipal de Teatro, atua no Centro de Pesquisa Teatral, de Antunes Filho.
Do outro lado do mundo, Fernando Jacon (diretor técnico do Festival Internacional de Londrina), é convidado a atuar em uma das maiores companhias de dança do mundo: a de Pina Bausch, na Alemanha. Patrícia Braga Alves é gerente de turnê de um dos mais importantes grupos da Europa, Odin Teatret, da Dinamarca, dirigida pelo teatrólogo italiano Eugenio Barba.
A também técnica e produtora Mary Raquel Balekian integra a Companhia de Dança Cisne Negro, de São Paulo. O ator Humberto Brevilheri consolida uma história de quase 10 anos de trabalho em Pontedera, na Itália, com o diretor francês François Kahn. Silmara Fernandes, dramaturga, diretora e atriz, trabalha na Bélgica há cinco anos com o diretor Jan Fabri.
Teve ainda quem esteve lá fora conquistando experiências e retornou. O ator Poka Marques passou quatro anos com o lendário grupo Macunaíma, de Antunes Filho. A jornalista e dramaturga Maria Angélica Abramo teve uma experiência marcante com José Celso Martinez Correia e o Teatro Oficina. O ator André Luiz Lima trabalhou um período com o grupo Malayerba, no Equador, e fez incursões pelo cinema nacional, como no filme ''Policarpo Quaresma''. A Cia. de Theatro Fase III também mostrou num festival na Alemanha o resultado de uma experiência de mais de 15 anos de grupo.
O movimento teatral londrinense transformou a cidade em ponto de referência das artes cênicas. A busca por uma qualidade estética, o nível das produções, as referências e a preocupação com a qualidade do trabalho de ator formaram o perfil do teatro londrinense. Sem deixar de lado a marcante característica do teatro amador, que foi base para a formação de grande parte dos talentos que nasceram na cidade.


