Na pacata cidadezinha ''Amém'', fictícia, que poderia estar perdida em um lugar qualquer do Brasil, sob a bênção da Virgem Maria, retalhos da memória de atores-personagens que não têm vergonha de expressar através da linguagem teatral a riqueza do envelhecer. Da Cia de Theatro Fase 3, que está comemorando 20 anos, o espetáculo ''Ave Maria, abençoe as velhas loucas pois tu o és também'' - escrita e dirigida por João Henrique Bernardi - estréia hoje, às 19 e 21 horas, na Casa de Cultura da UEL, levando ao espectador um olhar sobre a trajetória da companhia. Uma vida de muitos mundos costurados e que coloca a discussão do papel e da imagem do velho na sociedade. No título do espetáculo, uma homenagem à mãe de Jesus, padroeira do grupo e sinônimo de força fora do comum em prol do amor, que, no caso da companhia, é do amor ao teatro.
No cenário para representar a cidade imaginária, dentro do estilo sinestésico de fazer teatro que caracteriza grupo, o público pode viver as emoções dos acontecimentos locais, como a inauguração da igreja matriz. ''A peça é uma 'colcha de retalhos', em que há trechos de algumas de nossas peças anteriores e também histórias reais de integrantes do grupo, como a da atriz Edith Sobania que, por ser alemã, sofreu perseguição no Rio de Janeiro, após a Segunda Guerra Mundial'', explicou Bernardi. Mas o diretor adverte que o tom que predomina é o da diversão, de uma época em que as ''viúvas de Getúlio Vargas'' viviam o glamour da Rádio Nacional, enfocando principalmente o período de 1930 a 1950.
Com caráter alternativo e interativo, o público acompanha o cotidiano da cidade, conhecendo seus espaços a partir da memória da única moradora que ficou na cidade esquecida. Em ''Amém'', tudo o que se sabe do mundo é através das notícias do Sistema de Alto Falante (SAF) e do jornal. O início da história é a tomada do Catete por Getúlio Vargas e o sonho se encerra com seu suicídio. Quando todos os habitantes seguiram seus caminhos, Blanca se manteve para segurar os alicerces da casa, da cidade que existe em suas lembranças e imaginário - fragmentos de memórias e imagens do subconsciente.
O cenário foi composto com fuxicos, cheiro de café da tarde, colchas de retalhos, bandeirinhas de São João e muita chita. O figurino é uma reciclagem de roupas doadas pela comunidade londrinense, transformadas a partir de pesquisa em revistas antigas.
No saguão de entrada do local da apresentação, o público poderá conferir uma exposição com fotografias e cartazes que conta os 20 anos do grupo, ao som de música de época, raras gravações da Casa Edison.
Com 20 anos de estrada, em plena comemoração de ''Bodas de Porcelana'', o grupo atualmente é composto por 28 atores, sendo a maioria pessoas acima dos 60 anos. Tudo começou quando o diretor Bernardi, então com 18 anos, começou a trabalhar com teatro para a terceira idade no Sesc após convite da bibliotecária e professora Sueli Bertolin. Encantado com esse universo, já são 21 peças montadas e uma carreira de sucessos, sendo que ''Ave...'' foi contemplado com o Prêmio Funarte de Teatro Myriam Muniz com o patrocínio da Petrobras.
O elenco é composto por Jandira Testa, Benedita Coutinho, Rosa Galindo, Zoraide Dantas, Maria Pia Guedes, Flavy Pohl, Cecília Souza, Emília Felcar, Yvonne Tognolli, Carmen Mattos, Antonia Machado, Helena Oliveira, Julia Bahlls, Edith Sobania, Leovaldo Bombardi, Alice Brunnetto, Fabrício Borges, Tati Costa, Lilian de Lucca, Ella Melo, Alain Valchera, Darwin Rodrigues e Remir Trautwein. Atores convidados: Donizetti Buganza, Regina Reis e Fabiane Biazus.

Serviço:
- Espetáculo teatral ''Ave Maria, abençoe as velhas loucas pois tu o és também'', da Cia de Theatro Fase 3. De hoje a domingo, e do dia 17 a 19 de novembro, sempre às 19 e 21 horas. Ingressos: R$ 6,00 e R$ 3,00 (estudantes e maiores de 65 anos). Nos demais dias estão sendo agendadas apresentações gratuitas com instituições ligadas à educação e cultura pelo telefone (43) 9956-3850 ou 3347-1738, ou pelo e-mail [email protected].

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