ARTES CÊNICAS - Teatro de rua com sotaque próprio
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 16 de setembro de 2003
Katia Michelle Pires<br> Equipe da Folha 
Curitiba É quase um processo de migração. Para fugir do rigoroso inverno gaúcho, há três anos, a Oigalê Companhia de Artistas Teatrais sai de Porto Alegre rumo a uma longa viagem para regiões mais quentes e mais propícios ao teatro de rua. A temporada deste ano intitulada ''Corredor Cultural II'' começou em julho, numa turnê que incluiu cerca de 20 cidades, passando pelo interior do Paraná e São Paulo. Na bagagem da trupe, três espetáculos que fazem parte do repertório da companhia e que vão sendo apresentados em cada parada. Depois do longo percurso, no retorno para a cidade natal, eles desembarcam hoje, em Curitiba, para uma única apresentação na Praça Tiradentes, às 17 horas.
O grupo já esteve antes na cidade, em apresentações memoráveis durante o Festival de Teatro de Curitiba (edição 2000). No mesmo ano, durante mais uma ''temporada migratória'', o grupo voltou a se apresentar nas praças curitibanas, conquistando o público com sua performance peculiar. Ao lado de boas companhias brasileiras que investem numa linguagem popular sem perder a qualidade, como o Galpão e os Parlapatões, a Oigalê aposta no teatro de rua para realizar as suas montagens.
No retorno à cidade, a companhia volta a mostrar o espetáculo ''Deus e o Diabo na Terra da Miséria'', montagem que acumula mais de 200 apresentações no Brasil e exterior. Baseada numa lenda gaúcha, ''Deus e o Diabo'' é uma adaptação de um capítulo do livro ''Dom Segundo Sombra'', de Ricardo Guiraldes. O espetáculo reúne elementos do teatro de rua como perna-de-pau, música ao vivo e um figurino excêntrico com o regionalismo que também pode ser conferido às montagens da companhia gaúcha. A característica é levada sem medo para os espetáculos que integram o repertório da trupe.
''Acho que esse regionalismo acaba sendo universal. A história do ''Deus e o Diabo'', por exemplo, pode acontecer em qualquer lugar e o fato de contarmos a lenda com o sotaque gaúcho não interfere na compreeensão do espetáculo'', defende o diretor da companhia Hamilton Leite. Ele ressalta que a aceitação do grupo tem sido ótima durante as apresentações em outros estados e países (o grupo já fez turnê na Argentina, além de vários estados brasileiros) e o toque gauchesco dá identidade ao grupo.
Fundada em 1999, justamente para a montagem de ''Deus e o Diabo...'', a premiada companhia (ganhou prêmios gaúchos de incentivo à produção e foi premiado no Festival Internacional de São José dos Campos e no Festival de São José do Rio Preto, para citar alguns) já acumula cinco montagens no repertório. Nas suas andanças, já se apresentou em quase todas as regiões do País. No ano passado participou do projeto ''Um Diálogo Entre o Sul e o Norte: As Artes Cênicas Aproximando o Brasil'', financiado pela Petrobras. dentro do programa, percorreu as cidades de Manaus, Belém, São Luís e Fortaleza.
Os três espetáculos apresentados durante as turnês ''Deus e o Diabo na Terra de Miséria'', ''Mboitatá a verdadeira história da cobra de fogo dos pampas'' e o ''Negrinho do Pastoreio'' rendeu a gravação de um CD, reunindo as músicas criadas especialmente para o espetáculo. O grupo aproveita a passagem por Curitiba para lançar o disco.
A trilogia é calcada no folclore brasileiro. Depois de ''Deus e o Diabo'', primeiro espetáculo da trupe, a Oigalê produziu ''Mboitatá: a verdadeira história da cobra de fogo dos pampas'', baseada numa lenda de origem guarani, escrita por Simões Lopes Neto, em 1913. A triade é completada pelo espetáculo ''Negrinho do Pastoreio'', que a companhia dedica aos povos oprimidos.
A trupe é formada por sete atores e os espetáculo são sempre dirigidos por Hamilton Leite, que também atua em algumas montagens. Em''Deus e o Diabo'', além do diretor, fazem parte do elenco Cintia Ceccarelli, Giancarlo Carlomagno, Ricardo Vivian e Vera Parenza.
Para percorrer a jornada encapada nos últimos anos, a companhia conta com uma caminhonete e um carro de passeio, lembrando os grupos mambembes comuns na década de 70, mas que foram se perdendo no tempo por causa da dificuldade de produção.
Mas é justamente para romper essa barreira e para divulgar um trabalho de qualidade, que a companhia ignora esses obstáculos e não pensa em parar a maratona de viagens. ''Acho que os estados brasileiros precisam investir cada vez mais no teatro de rua, mas principalmente na circulação desses espetáculos para promover um intercâmbio maior entre as regiões'', analisa Leite.
Parte dos espetáculos dessa útlima temporada foram promovidos pelo Sesc-São Paulo. Algumas apresentações foram independentes. Em Curitiba, a apresentação que encerra a temporada da companhia conta com apoio da Fundação Cultural de Curitiba e do Centro Cultural Teatro Guaíra.
Serviço:
- ''Deus e o Diabo na Terra da Miséria'', espetáculo de rua da Oigalê Cooperativa de Artistas Teatrais. Hoje, às 17 horas, na Praça Tiradentes, em Curitiba. Depois do espetáculo, o grupo lança o CD ''Trilogia Pampeana''. Entrada franca.


