Para tornar alguém cativo, tire tudo o que tem. Talvez essa seja a mais moderna forma de escravidão, uma aberração social sarcástica, explorada com humor pelo grupo espanhol La Machina Teatro na peça ''La Sucursal'', estréia de hoje no FILO, com reapresentação amanhã, às 20 horas, no Circo Funcart.
Com aval de público e crítica européia, a companhia apresenta no festival londrinense um texto do dramaturgo e poeta Isaac Cuende sob a direção de Francisco Valcare.
O espetáculo sai da convencional e fria vida de uma dupla de músicos miseráveis treinada para esmolar com eficiência, colocando em ebulição uma discussão translúcida ao problema social.
A melancolia do acordeom enriquece a pobreza da mendicância na peça, distorcendo ainda mais realidade, o que ajuda o público a engolir essa forma de escravidão, que prende-nos aos ferros quando acreditamos que não temos nada.
Sem abrir mão do que mais incomoda e atrai na liberdade de não se preocupar com o que comer ou vestir, a dupla de músicos tem um pouco de esperteza, malícia e ingenuidade, amansados pela psicologia de aprender a se passar por coitadinhos.
Os dois mendigos passam pelo texto de Isaac Cuende beliscando a metáfora em que o treinamento da dupla é apenas parte de uma engrenagem da indústria da exploração.
Por não serem donos de nada. Nem da própria vida, que acreditam ser explorada apenas pela liberdade das ruas, os dois se tornam escravos desse complexo industrial: a sociedade. Ao mesmo tempo são sucursais da miséria humana.

SERVIÇO
- La Sucursal. Autor: Isaac Cuende. Elenco: Fernando Madrazo, Luis Oyarbide, Alberto Sebastián. Cenografia: José Helguera. Figurino: Paula Roca. Música original: Yuyo Hornazabal. Direção: Francisco Valcare.

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