''Toda a vida das sociedades nas quais reinam as condições modernas de produção se anuncia como uma imensa acumulação de espetáculos. Tudo o que era diretamente vivido se esvai na fumaça da representação''. A frase do filósofo e ativista francês Guy Debord (1931-1994), extraída de seu livro ''Sociedade do Espetáculo'', poderia resumir as reflexões apresentadas na peça homônima da Cia. Teatro de Garagem.
A peça, terceira montagem do grupo londrinense, estréia na próxima quarta-feira na Biblioteca Pública Municipal contando a história de personagens traumatizados pelos mais diferentes motivos: desilusões amorosas, conflitos profissionais, divergências dos papéis familiares, banalização da sexualidade, entre outras. A montagem tem direção de Rafael Francis, ator formado pela Escola Municipal de Teatro.
''A sociedade impõe valores, modas, costumes e políticas'', explica o diretor. ''Embora ainda existam regimes totalitários por aí, estamos sujeitos a outra formas de controle. Vivemos uma ditadura invisível, uma sociedade de aparências, de simulacros, na qual prefere-se a ilusão ao real. Daí o isolamento social e seus problemas. Os personagens da peça são pessoas comuns, que criam fantasias como válvula de escape. Poderiam ser qualquer um de nós, já que nos dias atuais a loucura pode se apresentar em qualquer lugar: dentro de casa, nas ruas, nos hospícios, nas prisões ou nos hospitais. O palco para as insanidades contemporâneas não têm fronteiras, não se sabe onde começa nem onde termina'', salienta.
Francis lembra que um esboço da peça foi gestado anos atrás quando estava na reta final do curso de formação da Escola Municipal de Teatro. Na ocasião, escreveu um texto para uma possível montagem de formatura, que acabou não se concretizando. As anotações coincidiam em vários pontos com as teses expostas por Guy Debord no livro 'Sociedade do Espetáculo'', publicado em 1967 e considerado um dos responsáveis por inspirar os líderes da célebre revolta do ''Maio de 68'' francês.
''Li o livro depois e vi que a peça tocava no mesmo tema'', conta. Mais tarde, ele decidiu retomar o texto e finalmente colocar as inquietações intelectuais no palco. Segundo o diretor, a idéia de apresentar o espetáculo na Biblioteca Pública decorreu da proposta da montagem, inadequada para palcos italianos.
''Queríamos levá-la para um espaço não convencional'', conta. ''Inicialmente pensamos num barracão, mas vimos que isso seria inviável porque teríamos que pagar aluguel. Depois imaginamos um prédio antigo, histórico, no qual poderíamos aproveitar a arquitetura do local. Assim chegamos à biblioteca, que foi escolhida também pela localização central e ser de fácil acesso para o público''.
A peça será encenada no salão do pavimento superior da Biblioteca Pública. O elenco reúne os atores Adelita Siqueira, Carolina Gambarini, Danilo do Amaral, Everton Bonfim, Laura Lago, Manuel Arruda e Vínicius Kafo. O espetáculo fica em cartaz ainda todos os dias até domingo e também nos dias 12 e 13.

SERVIÇO:
- Peça ''Sociedade do Espetáculo''
Quando - Amanhã e fica em cartaz nos dias 5, 6, 7, 8, 9, 12 e 13, sempre às 20h30
Onde - Biblioteca Pública Municipal (Av. Rio de Janeiro, 413)
Quanto - R$ 5

mockup