ARTES CÊNICAS - O grito que vem das ruas
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 20 de junho de 2006
Francismar Lemes<br> Reportagem Local 
''Agora e na Hora de Nossa Hora'', espetáculo que o ator Eduardo Okamoto, de Campinas (SP), estréia hoje no FILO, às 21 horas, na Casa de Cultura, não termina com uma anuência passiva de quem diz ''amém''. Ao contrário. Com reapresentação amanhã, o espetáculo traduz em tom maior a ladainha pronunciada em voz baixa pelos que vivem nas ruas, pessoas que se tornam invisíveis para a sociedade.
Ao enxergar esse exército que vende drops no sinaleiro, que faz pequenos furtos para poder cheirar cola e fumar crack, Okamoto acende a luz sobre a história real de Pedrinha - uma sobrevivente da Chacina da Candelária, no Rio de Janeiro, que vitimou oito crianças, mortas enquanto dormiam.
Os contonos cênicos para essa história real são dados ainda pelo conto ''Macário'', do mexicano Juan Rulfo, que narra o dilema de um menino que está numa cisterna esperando que rãs saiam. Durante a noite, os anfíbios fizeram muito barulho, não deixando a madrinha do garoto dormir.
Com um pedaço de pau na mão, o personagem espera matar todas as rãs. Na montagem de Okamoto, enquanto Pedrinha espera que ratos saiam de um bueiro, acaba assistindo à Chacina da Candelária.
Para percorrer de novo esse universo, o ator aproveitou a experiência do trabalho com crianças e adolescentes de rua desenvolvido no projeto ''Gepeto'', parceria com a Organização Não-governamental Ação Artística para o Desenvolvimento Comunitário (Acadec) e Centro de Referência em Atenção Integral à Saúde do Adolescente (Craisa), em Campinas. Uma iniciativa que se estendeu também o público de rua de São Paulo e Rio de Janeiro.
A partir do treinamento corporal e da técnica de Mímesis Corpórea, metodologia desenvolvida pelo grupo Lume, que consiste na observação e imitação das pessoas no cotidiano, Okamoto encontrou elementos poéticos para retratá-las como personagens do espetáculo. A direção é de Verônica Fabrini.
Para amarrar essa concepção cênica, o ator buscou ainda referências no cineasta russo Serguei Eisenstein, que dirigiu ''Outubro'' e ''O Encouraçado Potenkin'', sintetizando uma técnica que chama ''ator-montador''.
Serviço:
- Agora e na Hora de nossa Hora. Criação e atuação: Eduardo Okamoto. Direção: Verônica Fabrini. Assistência de direção: Alice Possani. Pesquisa e execução musical: Paula Ferrão. Treinamento de ator: Lume. Iluminação: Marcelo Lazzarotto. Duração: 60 minutos.


