Quem imaginaria que uma plataforma de trem viraria um palco? Fruto de muita inspiração e suor, o espetáculo ''Estação Londrina'', do Ballet de Londrina, conquistou os londrinenses. Em curta temporada no Museu Padre Carlos Weiss totalizando nove finais de semana, que corresponderam a 22 apresentações , 7.056 pessoas prestigiaram a performance multiarte que reuniu atores, bailarinos e músicos. Nem a chuva, que foi inimiga constante das apresentações, conseguiu espantar os espectadores. A solução foi rápida e espontânea: sair das arquibancadas, esperar a chuva passar e voltar para se deliciar com a história da cidade através da dança, do canto, do teatro e do cinema.
''Estamos muito felizes com o resultado e este foi o nosso público recorde, considerando o tamanho da temporada'', comentou Leonardo Ramos, diretor do espetáculo, que também teve público direcionado: alunos de escolas municipais, do Viva Vida, da Rede da Cidadania e grupos de 3 idade. ''É muito gratificante constatar que a gente conseguiu mobilizar quase 2% da população da cidade para um espetáculo de balé'', acrescentou.
Orçado em R$ 120 mil, o projeto foi viabilizado pelo Programa Nacional de Incentivo à Cultura (Pronac), com incentivo fiscal da Millenia e Sercomtel. Mais uma vez a cultura foi uma mola propulsora de renda local já que empregou vários artistas da cidade, cerca de 120 pessoas, e necessitou de várias prestações de serviço. ''Acho importante que os empresários da cidade percebam que a cultura é uma grande distribuidora de renda e que o incentivo fiscal é uma forma do dinheiro ficar aqui'', destacou Ramos.
O envolvimento da cidade na apresentação foi tão grande que até as ambulâncias que passavam pela Avenida Leste-Oeste, que fica próxima ao local da apresentação, desligavam, espontaneamente, as sirenes para não perturbar a condução do espetáculo, relatou o diretor.
Como diferencial, ''Estação Londrina'' reforçou a concepção de utilizar espaços históricos públicos para apresentações de arte. ''Essa idéia demonstra o quanto os locais históricos podem ser utilizáveis e presentes na vida cotidiana.''
Ramos acredita que o espetáculo conseguiu cumprir o papel a que se propôs de criar uma reflexão nos mais velhos, ativar a curiosidade dos mais jovens e promover a oportunidade de fazer um balanço da história da cidade no decorrer dos seus 70 anos. ''O nosso objetivo foi cumprido. O espetáculo não poderia ser experimental nem uma investigação de estética. Tínhamos que ser o mais abrangente possível e ter cada objeto artístico bem definido.'' O diretor também anunciou que a partir do ano que vem o Ballet de Londrina entra em nova fase, preparando repertório inédito, sempre marcado pela temática do ser humano.
Irene Righi, 82 anos, ficou emocionada ao assistir ao espetáculo. Ao ver a Catita (jardineira adaptada para o transporte de passageiros na década de 30), foi inevitável para ela lembrar de quando chegou aqui, junto com os pais, vinda de Jataizinho, que na época se chama Jathay. O trem chegava até lá e o jeito era embarcar na Catita, enfrentar a estrada de chão, no meio da mata, para chegar até a ''Pequena Londres''.
''Não sou muito saudosista, gosto de viver o dia que vem pela frente, mas foi muito bom ter visto essa apresentação'', contou Irene. Ela também sugeriu uma pequena correção. Disse que antigamente as prostitutas não usavam roupas curtas, como mostradas no espetáculo. ''Elas usavam grandes saias, que arrastavam-se pelo chão'', relembrou. Desse tempo antigo, Irene também lembra com saudades das matinês dançantes e dos bailes que se faziam nas casas quando ficavam prontas.
Quem também teve que segurar a emoção, foi o médico Alceu Ferraz, 73 anos, gastroenterologista e o primeiro endoscopista da cidade, em 1969. Nascido em Pirajuí, próximo a Bauru, chegou aqui, em 1947, acompanhado por quatro irmãos, pai, uma prima e uma empregada. Do grupo todo, só estão vivos ele e um irmão mais novo. ''Para mim o espetáculo foi belíssiomo, uma festa, mas também teve um tom de emoção. Por dentro a gente chora'', explicou.
Na opinião de Ferraz, a apresentação foi completa e conseguiu tocar as pessoas que viveram esse passado. ''Considero importante preservar a história. Quem não tem passado, não tem futuro. Quem não preserva, não tem cidadania'', argumentou o médico, que foi idealizador do Marco Zero, no terreno da antiga fábrica da Anderson Clayton (na Avenida Theodoro Victorelli). O monumento marca o local onde ocorreu a primeira pernoite dos caravanistas pioneiros, em 1929.

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