Paradoxal, mas as tragédias são arrimos de famílias, sustentando algumas decisões. Personagem do drama realista que o grupo londrinense Boca de Baco estréia hoje no FILO, às 21h30, na Usina Cultural (Avenida Duque de Caxias, 4.159), o inventário de dor na peça ''Último Inverno'', é a única herança de três irmãos, cujo destino é uma frente fria.
A morte da mãe do trio ao dar à luz a uma menina, que durante quatro dias e quatro noites chora sem parar, é o tempo necessário para que o impacto da tragédia apóie uma decisão sobre o que fazer com a criança, elevando ao delírio a escolha dos personagens.
A menina Albertina não aparece em cena, mas Zaíra (Jackeline Seglin), Piracicaba (Nivaldo Lino) e Marcelino (Paulo Munhoz), a acalentam o tempo todo nos braços das suas fraquezas, medos, angústias e desejos.
''A Albertina é uma metáfora do que matamos na nossa vida ao se enganar, sufocando muitas coisas'', afirma a atriz Jackeline Seglin.
Na dramaturgia do jornalista e roteirista Francelino França, que assina também a assistência de direção, na trilha sonora de Marco Tureta e direção de cena Carina Corte, a água congelada da resignação no fundo do poço da condição humana sobe à tona com os personagens flagrados na geada de 1975.
Convidado para dirigir a peça, Marcelo Bones, com 25 anos de carreira, tendo trabalhado com os mais importantes grupos do país, inclusive o Galpão, de Belo Horizonte (MG), espalhou essa água na peça, reunindo as várias histórias que o elenco coletou ao longo do processo de montagem.
O Boca de Baco, que nos últimos cinco anos trabalha com a pesquisa de linguagem e interpretação, desenvolvida pelo Núcleo de Investigação Teatral (NIT), sob a cordenação do diretor paulista Luiz Valcazaras, juntou no ''Último Inverno'', histórias de amigos, parentes e de algumas reportagens para encontrar o ponto de partida a partir das tragédias para a montagem.
Com isso, surge Zaíra, Piracicaba e Marcelino, que reúnem em si todo esse repertório, tendo a sombra de Albertina e o seu choro, na interminável noite escura da tragédia, que pode durar toda uma vida.

Serviço:
Direção: Marcelo Bones. Elenco: Jackeline Seglin, Nivaldo e Paulo Munhoz. Dramaturgia: Francelino França. Concepção cenográfica: Marcelo Bones. Concepção de figurinos: Francelino França. Trilha sonora original: Marco Tureta: Direção de movimento: Carina Corte. Coros: Silvio Ribeiro. Preparação vocal: Meire Valin. Assistência de direção: Francelino França. Fotografia: Karina Yamada e Walter Ney. Produção executiva: Cláudio Rodrigues. Duração: 50 minutos.

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