De dentro da cabeça de Herculano, homem pequeno e sem direito à tragédia em Nelson Rodrigues (1912-1980), o diretor Paulo de Moraes, do Armazém Companhia de Teatro arranca o clássico ''Toda Nudez Será Castigada'', que estréia hoje no FILO, com ingressos esgotados para as duas apresentações, às 20h30, no Teatro Ouro Verde (Rua Maranhão, 85). Esfacelando os miolos do personagem, paradigma da humilhação, a direção afiada e que ganhou o Prêmio Shell, disseca todos os podres da classe média.
''A idéia do espetáculo apropria uma coisa do próprio texto de Nelson Rodrigues, que parece que a história acontece dentro da cabeça de Herculano'', comenta Paulo de Moraes, diretor do grupo que nasceu em Londrina, há 20 anos, com o nome antigo de Companhia Bombom de Teatro, mas que está radicado no Rio de Janeiro.
Para tocar na pele áspera e ao mesmo tempo macia dos personagens rodrigueanos, no que tem de virulento e sedutor, Moraes esperou Rodrigues descansar na prateleira para retirá-lo agora ainda com mais vigor.
Moraes afirma que há 10 anos queria montar um texto do dramaturgo, hesitando pela falta do elenco certo. Um encontro que, finalmente aconteceu na montagem, com trilha de Arrigo Barnabé.
''Não é pelo texto do Nelson em si, mas para essa peça específica necessitava de um ator, por exemplo, para fazer o Herculano. Não era nem uma necessidade de preparação, mas poder sentir que tinha nas mãos um elenco adequado. Para mim, esse negócio dos textos do dramaturgo serem bastante montados nos anos 80 e 90 também não me seduzia. Considero esse o momento adequado, com os 25 anos da morte dele, uma leitura nova caia bem'', afirma o diretor.
Ao esgotar parte da virulência do texto, os 40 anos desde que foi escrito, não sufocam a hipocrisia das relações familiares assexuadas pelo puritanismo ao mesmo tempo despudorado.
Moraes aprecia, principalmente, a narrativa moderna de Rodrigues em flash-back, que abre mão da maior surpresa, que é a morte de Geni, mulher de Herculano, deixando uma gravação para o marido.
No texto de Rodrigues, o pacto de Herculano, com o filho Serginho de que nunca substituiria a mãe do rapaz, morre numa alcova, perdendo as próprias calças, xingando a mulher morta de ''mictório público''.
''É um texto ousado, moderno, que começa de trás para frente, criando mecanismos na história toda. Serginho por exemplo, desde o primeiro ato é citado, somente aparecendo a partir do segundo ato. Na peça, os personagens têm possibilidades para o ator fascinantes'', revela Moares, um dos pontos que mais o seduz na obra de Rodrigues, olhando para as curvas das mulheres e homens criados pelo autor.
''Ele cria personagens com uma curva, ao ponto de Herculano sair de uma depressão, depois que tudo acontece, e ser atingido por uma euforia completa quando não está mais em cena. É uma construção estranha, mas interessante'', conclui Moraes.

SERVIÇO
- Toda Nudez Será Castigada. Autor: Nelson Rodrigues. Direção: Paulo de Moraes. Elenco: Patrícia Selonk, Thales Coutinho, Fabiano Medeiros, Sérgio Medeiros, Simone Mazzer, Stella Rabello, Isabel Pacheco, Simone Vianna, Raquel Karro, Ricardo Martins e Marcelo Guerra. Iluminação: Maneco Quinderé. Cenografia: Paulo de Moraes e Carla Berri. Figurino: Rita Murtinho. Música original: Arrigo Barnabé. Letra da canção-tema: Roberto Riberti.


FIQUE LIGADO
A cenografia de ''Toda Nudez Será Castigada'' é assinada pelo diretor Paulo de Moraes e Carla Berri. ''A idéia do espetáculo é que a história acontece dentro da cabeça do Herculano. Quis criar uma estrutura cênica que tivesse isso. Optamos pelo acrílico e ferro com várias portas pelas quais, os atores entram e saem rapidamente. É como se fossem as gavetas do Herculano. Esse jogo do acrílico com a luz trata justamente dessa oposição no espetáculo da convivência entre o sagrado e profano. Ao mesmo tempo em que o material lembra as janelas de uma igreja, a luz vermelha faz lembrar um bordel, dando a possibilidade de uma tradução realista'', afirma Paulo de Moares.


HOJE NO FESTIVAL
- Toda Nudez Será Castigada (Rio de Janeiro). Às 20h30, no Teatro Ouro Verde (Rua Maranhão, 85). Ingressos esgotados.
n Ha! Hamlet (Suíça). Às 20 horas, no Teatro Crystal (Rua Quintino Bocaiúva, 15). Ingressos esgotados.
- La Razón Blindada (Equador). Às 20 horas, no Circo Funcart (Rua Souza Naves, 2830). Ingressos esgotados.
- Antígona (Peru). Às 19 horas, no Teatro Zaqueu de Melo (Avenida Rio de Janeiro, 413). Ingressos esgotados.
- Doppelganger ou O Duplo (São José do Rio Preto -SP). Às 21 horas, na Casa de Cultura (Rua Mato Grosso, 537). Ingressos esgotados.
- Mamãe, como eu nasci? (Rio de Janeiro). Às 19 horas, no Palco Petrobras (Zerão).
- Papo de Anjo (Belo Horizonte). Às 12 horas, na Praça Marechal Floriano Peixoto (Área Central).
Ingressos para o FILO: posto de venda no primeiro piso do Royal Plaza Shopping. Das 10 às 19 horas. Domingos e feriados das 11 às 19 horas. Ingressos R$ 10,00 por espetáculo (com meia-entrada para aposentados, estudantes, classe artística, funcionários da UEL e portadores do cartão Petrobras). Mais informações pelo telefone: (43) 3324-3299.

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