ARTES - Festival de Teatro de Curitiba em expansão
PUBLICAÇÃO
sábado, 23 de fevereiro de 2008
Claudio Yuge<br>Equipe da Folha 
O Festival de Teatro de Curitiba procura expansão e inovação, mas, inicialmente, sem grandes mudanças. A maior alteração, além da retirada da palavra ''teatro'' da nomenclaura, é na postura, tanto da organização quanto do público. É o que afirma o administrador de empresas Leandro Knopfholz, de 34 anos, no retorno ao evento que ajudou a criar, em 1992, com a experiência de ter passado pela diretoria da Fundação Cultural de Curitiba e de mestrado em Gestão de Entretenimento, na Inglaterra.
O novo diretor do Festival de Curitiba conta à FOLHA2 um pouco mais sobre as mudanças e os planos de transformar o evento em uma atração maior e economicamente mais importante para a Capital.
Por que a mudança de nome?
O festival sempre teve eventos ligados a outras áreas. Já lançamos filmes, livros, fizemos algumas exposições. Isso tudo ficava ''embaixo'' do Festival de Teatro de Curitiba. A idéia de transformar o festival de teatro em Festival de Curitiba é trazer essas atrações que a gente já tinha no mesmo nível da Mostra Contemporânea, para dar mais visibilidade e fazer com que o evento ganhe em penetração na cidade, que tenha mais gente participando do evento. E, com o tempo, além das atividades artísticas, que a gente traga outras atividades, como congressos, seminários, eventos esportivos... A idéia é já no ano que vem fazer um calendário com música.
O que já muda efetivamente para esta edição?
A gente está colocando no mesmo patamar e relevância, tanto na mídia paga quanto nas notícias que a gente transmite, todas as atividades do festival. O que muda é a percepção que o festival dá para as atividades e o que a gente espera que o público saiba o que está acontecendo aqui.
Os ''eventos paralelos'', então, agora não são tão ''paralelos'' assim?
Exatamente, agora é tudo uma coisa só, essa é a idéia.
Algumas pessoas reclamam que o número de atividades do Fringe e da Mostra Contemporânea é grande e não dá para acompanhar tudo. Aumentar as opções não pode gerar mais reclamações ainda?
A idéia é que a gente atinja o maior número de pessoas possível. Nossa peculiaridade é que a gente lida com pessoas. A Mostra Contemporânea e a Mostra Fringe são mostras de teatro. É diferente de trazer obras de exposição ou as latas de um filme de cinema. Estamos lidando com gente, e gente que tem especificações de horários, de espaços que podem disponibilizar, de tempo para se adequar àquele espaço e sua situação. É uma equação bastante complexa para casar tudo. E a gente tenta, sempre pensando no público, fazer da melhor forma possível. De qualquer maneira, o princípio do Fringe é quantidade e diversidade, desde que os espetáculos sejam profissionais, conforme um acordo que temos com o sindicato. Partindo desse princípio, a gente tenta adequar as necessidades dos artistas às condições que a gente tem - salas, horários e possibilidade de montagem, condições técnicas - com horários mais palatáveis para o público poder acompanhar. Este ano vamos ter mais de 250 espetáculos no Fringe e usar mais de 52 espaços diferentes. Então, é uma coisa delicada de ser realizada e estamos tentando da melhor forma possível.
Quais são as novidades para este novo formato?
A gente está começando um projeto chamado ''Residência das Artes'', que é o apoio a um grupo de artistas para que se instale em Curitiba durante um período anterior ao festival e que crie um processo criativo nessa estada. E que demonstre o resultado desse processo criativo durante o evento. Este ano a gente tem um projeto do grupo Os Satyros, chamado ''Fauna'', que visa trabalhar com uma comunidade carente, levando autores e artistas profissionais ao encontro com autores e artistas amadores dessa comunidade.
Não são tantas mudanças nesta primeira edição. Isso é proposital, ter uma alteração gradual para não agredir os tradicionalistas?
Claro, mas primeiro que eu voltei ao evento em setembro (de 2007), então a falta de tempo não permite muitas mudanças. Segundo, acho que a gente tem que fazer a curva aos poucos. Na minha opinião, o festival tem dado certo nos últimos anos e não tem razão para mudar. Tem que ser aperfeiçoado, mas não mudado.
Essa nova fórmula tem um pouco da experiência que você teve estudando no exterior e remete ao festival de Edimburgo, que inspirou a criação do Festival de Teatro de Curitiba. Como isso influencia nesse novo formato?
O Festival de Curitiba, desde o começo, sempre se balizou pelo Festival de Edimburgo, que é o maior do mundo. O Festival de Edimburgo tem 61 anos, começou em 1947, também com uma mostra de teatro, com intuito econômico - a idéia era trazer turismo para a cidade, que estava devastada depois da Segunda Guerra Mundial - e hoje é um evento economicamente fundamental para a cidade, movimenta R$ 4 bilhões nas três semanas que acontece. E esse festival envolve o máximo de atividades possível, sejam artísticas ou não artísticas. Então, sem dúvida, quando quis mudar o nome do festival, a escolha foi balizada nisso. Em relação ao que eu vi fora, o que estudei, é muito sobre a função econômica da arte e da cultura. O que a gente também pretende é gerar um impacto econômico, além do cultural.
Essa proposta parece ser mais ''de fora para dentro'', no sentido das próprias pessoas se educarem a aproveitar de forma mais racional as atividades do festival.
Há muitos anos, em 98, li um editorial da Folha de S. Paulo que falava do ''Superoutubro''. Em São Paulo, naquele ano, estava acontecendo a Fórmula 1, a Liga Mundial de Vôlei, a Feira de Informática... Uns quatro ou cinco eventos grandes, que mesmo em São Paulo, uma cidade grande, causavam um impacto. Curitiba não é tão grande assim. E acho que o Festival de Curitiba pode ser o ''Supermarço'' para a cidade. A gente tem pesquisado e no Brasil inteiro não tem uma atração que puxe pessoas para determinado local em março. Então, é uma oportunidade para Curitiba se destacar.
Muita gente da classe cênica reclama que o público que comparece ao festival em março some durante o resto do ano. Existe uma preocupação especial ou estratégia para manter as pessoas no teatro a temporada inteira?
Acho que a função do festival de estimular a ida às salas de teatro está sendo cumprida. A organização tem disposição para pensar em estratégias. Mas é importante também delimitar qual é a função de cada um. O festival se propõe a fazer o que faz em março, que é despertar o interesse, atrair gente e mostrar que teatro e cultura em geral é assunto de todo mundo. Se você não for, vai ficar por fora do que todo mundo fala. Então é melhor que você saiba o que está acontecendo e essa função do festival a gente acaba cumprindo.
Houve mudança no critério de escolha das peças?
A gente manteve uma comissão curadora, formada por três profissionais de teatro. O Celso Curi (crítico paulista), a Tânia Brandão (intelectual e mestre em teatro no Rio de Janeiro) e a Lúcia Camargo (jornalista paranaense radicada em Minas Gerais). A linha mestra da curadoria prevê um tripé que é qualidade, inovação de linguagem e aposta em novos nomes. Isso se manteve nos últimos anos e neste também. Queremos ratificar a posição de vitrine para o teatro nacional.
Algumas pessoas são receosas com relação a mudanças. Como você convidaria esse público?
É um aperfeiçoamento do que está sendo feito, um ajuste para ficar mais próximo do público. Queremos fazer a grande festa da cidade, aproveitando o aniversário de Curitiba na última quinzena de março, e espero que as pessoas também aproveitem essa profusão gigante de ofertas de atividades artísticas como desculpa para aproveitar melhor a cidade.


