Além de levar a magia da representação aos palcos, o teatro é utilizado como instrumento de reinserção social nas mais variadas atividades. É uma arte que envolve, provoca, emociona, transforma. Aguça a sensibilidade, trabalha a criatividade e tem uma forte ligação ao mesmo tempo com a realidade e a fantasia. É uma poderosa ferramenta contra o preconceito e a indiferença.
Desde abril, os atores Alessandro Antonio da Silva e Danielle Lara Moreira de Souza vêm desenvolvendo o projeto ''Teatro Inconsciente: Uma Pesquisa Criativa'', com pessoas que buscam a reintegração através atividades socializantes e terapêuticas: pacientes portadores de transtornos mentais frequentadores do Caps (Centro de Atenção Psicossocial) de Londrina.
Nesse trabalho, que tem patrocínio do Programa Municipal de Incentivo à Cultura (Promic), os monitores formados em Artes Cênicas pela Universidade Estadual de Londrina buscam explorar a criatividade artística dos pacientes. Mantido pela Secretaria Municipal da Saúde, o programa do Caps objetiva a luta antimanicomial e a reinserção do doente mental na sociedade.
O centro é um local onde o paciente recebe assistência, tratamento e atenção de forma integral. ''Aqui ele é visto no contexto biológico, psicológico, social, cultural, terapêutico e familiar. O paciente tem de ser atendido em todas as dimensões e uma delas é a sócio-cultural'', explica a coordenadora do Caps, Rosita Pereira.
O Caps trabalha a perspectiva de atender o paciente sem precisar recorrer a internações em hospitais psiquiátricos tradicionais. Além do atendimento ®MDBO¯®MDNM¯ambulatorial,®MDBO¯®MDNM¯ o centro tem a seção de terapia ocupacional com oficinas de pintura, desenho, tricô, crochê, macramê, marcenaria, culinária, jardinagem e teatro.
Segundo Alessandro Silva, que coordena o projeto e há dois anos desenvolve pesquisa sobre o assunto, o teatro permite um novo contato do paciente com o ''mundo exterior'' e explora a criatividade artística de forma significativa. Ele acredita que o limite da vida real com o teatro tem um período de consciência. ''O paciente em crise, por exemplo, já deu um mergulho. Mas tem ainda um lado consciente que permite entender as regras do jogo. No jogo dramático, ele tem de fazer um mergulho no inconsciente para criar''.
Alessandro Silva acredita que através das regras do próprio teatro o paciente consegue separar a ficção da realidade. ''O teatro permite um novo contato com o mundo lá fora'', diz o coordenador, salientando que o projeto é um trabalho de terapia de apoio com resultado imediato.
No entanto, ele alerta que o projeto não visa qualquer tipo de tratamento psicoterapêutico. ''Queríamos saber mais sobre essa relação do transtorno mental com a criatividade. E dentro da terapia ocupacional do Caps encontramos a possibilidade de trabalhar a questão artística com os pacientes'', comenta.
Nas atividades, que acontecem três vezes por semana em dois grupos (matutino e vespertino), Alessandro e Danielle exploram o conteúdo criativo através de jogos teatrais, improvisações, expressão corporal e vocal, abordando também outras atividades artísticas, como a pintura.
Durante o ano, o grupo realizou esquetes dentro e fora da instituição. Em setembro, o Caps completou sete anos em Londrina. Como parte das comemorações, foi realizada uma tarde cultural na Concha Acústica e uma das atrações foi o projeto de teatro, que apresentou duas esquetes: ''O Inconsciente à Flor da Pele'' (criação coletiva) e ''O Médico'', de Maria Clara Machado.
O projeto ''Teatro Inconsciente...'' se encerra em dezembro. Amanhã, os participantes fazem uma apresentação no Calçadão da UEL, num evento do curso de Serviço Social. Para 2004, a proposta é continuar com as oficinas e acrescentar outras atividades, que estarão previstas em novo projeto apresentado ao Promic: uma oficina de pintura, escultura e gravura; um espetáculo teatral montado fora da instituição e uma oficina carnavalesca que criará as fantasias para o bloco do Caps no Carnaval 2005. O projeto também será ampliado e levado ao Caps-I (que atende crianças e adolescentes portadoras de sofrimento emocional).

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