- Não se preocupem, eu não sou um ‘‘sombra’’.
A afirmação parecia não convencer o público que se aglomerou no Calçadão de Londrina, curioso com o sujeito vestido de preto e rosto pintado de branco. Mímico há 14 anos, Everton Ferre tem encontrado resistência quando se apresenta em locais onde os sombras - mímicos popularizados pelo programa ‘‘Domingão do Faustão’’ - passaram. A platéia resiste, mantém distância, com medo de se tornar alvo de alguma brincadeira.
- Sou um contador de histórias que não utiliza palavras.
Apresentações feitas, começa a primeira etapa do espetáculo. Com gestos bem definidos, o mímico se transforma em um médico nada convencional. Do paciente imaginário à sua frente, extrai vísceras, especula o interior, retira um coração pulsante.
Cesar Augustoele usa o corpo, caras e bocas para...
O público hesita, as risadas são discretas. A descontração começa com a segunda peça, em que Everton simula um marido aguardando o parto da esposa. As risadas aumentam e o artista é aplaudido no final.
Há dez anos sem se apresentar em Londrina, Everton Ferre percebe que a cidade cresceu e que os sombras já passaram por aqui: ‘‘O público tem medo de se aproximar, as pessoas evitam o mímico por receio de se tornarem motivo de brincadeiras. Mas eu conto histórias, meu trabalho é diferente. Esse é um espaço que nós precisamos reconquistar’’.
Natural de Curitiba, Everton começou a fazer teatro no Peru, e estudou pantomima com o ator Jorge Acu¤a. ‘‘Sou o único mímico que está trabalhando há tanto tempo na rua ininterruptamente. Não tenho nada contra os sombras, mas nossas escolas são diferentes. Se eu vejo um velho com bengala na rua, não procuro imitá-lo, mas descobrir por que ele anda daquele modo, procuro enaltecer o valor humano nas minhas apresentações’’, explica.
O sustento ele retira do que recebe passando o chapéu. Desta forma já viajou por 14 países e conhece o Brasil do Oiapoque ao Chuí. Everton também desenvolve trabalhos educativos, apresentando-se em escolas, empresas e indústrias: ‘‘Com as crianças trabalho mais educação ambiental, mas posso desenvolver outros temas, como segurança no trânsito’’.
Cesar Augustoexpressar sua arte puramente gestual
O ator veio a Londrina para uma apresentação no Colégio Marista e pretende ficar alguns dias na cidade. ‘‘Trabalho praticamente de improviso, existe um roteiro pré-elaborado, que pode ser alterado de acordo com as circunstâncias’’, ressalta.
Há tanto tempo nas ruas, Everton já protagonizou cenas incomuns. Em Curitiba, durante uma apresentação, foi detido pela polícia por impedir a passagem de um carro de transporte de valores: ‘‘o público me acompanhou até o módulo, os guardas perceberam que se tratava de um espetáculo e me liberaram’’.
Em outra ocasião, o ator teve a mala onde carrega os apetrechos roubada. ‘‘Os meninos de rua, quando perceberam que era minha, devolveram. Afinal, eu divido aquele espaço com eles’’.
Certa vez, ao passar o chapéu, uma senhora lhe perguntou se aceitava uma calça como contribuição. A mulher havia comprado o produto para o filho. A roupa não serviu e o vendedor não quis trocar. Everton provou a calça no local e, após verificar o tamanho, recebeu-a de presente.

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