Arte sem limites
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sábado, 06 de novembro de 2004
Ana Paula Nascimento<br> Reportagem Local 
Descobrir o potencial criativo dos gestos e movimentos que o corpo pode fazer através da dança foi a experiência vivida por 23 participantes de ''A Dança Secreta'' oficina de teatro e dança realizada durante a semana passada no Institulo Londrinense de Educação de Surdos (Iles). Acostumados com a riqueza dos códigos e gestos da Língua Brasileira de Sinais (Libras), não pareceu difícil para os participantes, com idades entre 14 e 26 anos, ampliar esse conhecimento dentro do contexto da dança com abordagem contemporânea.
Orientado pela professora de dança Tatiana Wonsik Recompenza Joseph, com o acompanhamento dos coordenadores Alessandro Antonio Silva e Suzana Proença, o grupo está sendo capacitado para essa nova forma de arte. A oficina foi viabilizada dentro da proposta dos Projetos de Maio, inciativa do Festival Internacional de Londrina (Filo) que busca motivar na comunidade atividades permanentes de cultura. Há quatro anos teve início o trabalho com os alunos do Iles, mas era mais voltado para a arte da mímica como parte do projeto ''Palavras do Silêncio'', que contou com a participação do grupo ETc e Tal, do Rio de Janeiro.
Agora, reformulado, e em parceria com Projeto Paranização, do governo estadual, o projeto ganha um caráter mais multiplicador. Em Londrina, alguns participantes eram de outras cidades e serão os agentes culturais de multiplicação nas entidades das quais fazem parte. O projeto deverá ter continuidade a partir de março do ano que vem, estando programado para junho, no encerramento do Filo, uma apresentação de um espetáculo de teatro e dança sobre o folclore brasileiro com os participantes.
Tatiana, que é formada em dança pela Unicamp, faz mestrado sobre a investigação do discurso poético a partir da linguagem de sinais. Ela morou em Cuba, onde participou de diversos trabalhos relacionados à dança com surdos. ''O meu trabalho de dança foi muito marcado pelo gestual e sempre me impressionei com a linguagem dos sinais. Me interessava perceber como um sentido a menos pode aguçar os outros e acredito que o papel da arte é transgredir limites'', afirmou.
Ela diz que ainda existe preconceito com relação à surdez, na dança, e de modo geral, e que o assunto é delicado. ''Essa idéia de que a música determina a dança já está ultrapassada. O corpo tem autonomia completa da música. É ele quem inspira a música'', explicou Tatiana, que preferiu neste trabalho explorar a sensibilidade gestual dos participantes a trabalhar com a vibração sonora, que também é um recurso bastante utilizado. ''Inserir-se em outra realidade é uma forma de conseguir fazer uma leitura diferente do mundo. Como coreógrafa, estou sentindo uma satisfação imensa por esse trabalho e por ele poder ser realizado aqui.''
Heloir Aparecido Montanher, 26 anos, estava encantado com o que experimentou. Com a ajuda da Tatiana, que aqui virou nossa intérprete, contou que achava que as aulas teriam exercícios de repetição. ''Foi emocionante e muito criativo. Foi a primeira vez que dancei e vi o quanto tenho que estar aberto para desenvolver a criatividade na dança'', comunicou Montanher, na linguagem de sinais, que pretende transmitir o aprendizado adquirido aos seus alunos surdos em Cascavel.
A aluna de Educação Física Francielle Fernanda Alessi Aristides, 22 anos, também aprovou a iniciativa e disse que acredita que a oficina poderá ajudá-la a trabalhar na sua futura profissão. Aluna de uma universidade particular da cidade, Francielle, que domina a leitura labial, disse que o surdo ainda encontra muitas dificuldades para fazer curso superior pela falta de estrutura física e treinamento adequado dos professores. O tema do seu trabalho de conclusão de curso é sobre a melhoria da metodologia para trabalhar com o surdo.
Gelson Dalberto Alves, 17 anos, aluno do segundo colegial, também se comunica com perfeição através da leitura labial. Ele faz parte de um grupo de teatro e estava entusiasmado com a experiência de dançar. ''Acho fundamental aproveitar essa oportunidade. Também foi a primeira vez que dancei e gostei muito. Dança é emoção, é sentimento'', concluiu.


