Arte sem fronteiras
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 26 de agosto de 2002
Francelino França<br> Reportagem Local 
No agreste pernambucano, a cidade de Bezerros ficou conhecida no Brasil e em galerias de arte de várias partes do mundo por intermédio da arte sofisticada do gravurista J. Borges. O imaginário nordestino delimitado pelos traços de J. Borges conheceu vários sotaques, ultrapassando as fronteiras de Pernambuco, com trabalhos nos Estados Unidos, Venezuela, Cuba, Portugal, Alemanha, Suíça e França.
Mas somente agora, aos 66 anos, criador e criatura conhecem o Paraná. J. Borges visita Londrina e participa da abertura da 7 Feira Nordestina, a partir do dia 28 de agosto. O Museu de Arte de Londrina abriga a exposição do artista pernambucano denominada ''O Real e o Fantástico de J. Borges'', sob a curadoria de Danilo Coelho. A exposição prossegue até o dia 8 de setembro. São 80 gravuras que retratam a cidade natal do artista, o imaginário nordestino, o comportamento dos habitantes locais e as frutas da região. O pernambucano também ministra oficina de xilogravura de 28 a 30 de agosto, mas as vagas já estão esgotadas.
O cordelista e gravurista viaja com bastante frequência. Ele embarca no próximo mês para os Estados Unidos, a convite de Museus de Nova York, Pensilvânia e Colorado. Seu nome emergiu para o reconhecimento após apadrinhamento do escritor Ariano Suassuna. Hoje, orienta vários discípulos que seguem seus ensinamentos artísticos.
''Do rosto da poesia, eu tirei o santo véu e pedi licença a ela para tirar o chapéu e escrever a chegada da prostituta no céu''. Esses versos iniciais do cordel mais afamado de J. Borges ''A Chegada da Prostituta no Céu'' ganha sempre reedições. No Museu de Arte de Londrina, os traços precisos de imagens que sintetizam o caleidoscópio da cultura nordestina convivem harmoniosamente com a arquitetura inovadora de Villanova Artigas. J. Borges conversou com a Folha2 sobre sua aldeia, o declínio da literatura de cordel, sua rápida passagem pela escola e suas gravuras.
A Aldeia
Bezerros fica a 110 km de Recife. Diz a lenda que uma vaca deu à luz a dois bezerros num antigo pé de Jucá, no século 18. Tocaram fogo no pé de Jucá. O fato ficou conhecido como a queimada dos bezerros. Vieram uns padres e fizeram uma capelinha que deram o nome de São José dos Bezerros, nosso padroeiro. Daí surgiu Bezerros, numa região pobre. Bezerros não cresceu em 132 anos. Fica entre Caruaru e Gravatá. Tem uma lenda de Serra Negra, lá da minha terra, que conta que uma negra se escondeu e terminou morrendo de fome e sede para não ser escrava. É um lugar visitado, de quase mil metros de altitude. A água de Bezerros veio de lá, em cano de barro, por gravidade.
O início
Comecei a trabalhar em agricultura, depois passei para o artesanato até na construção civil trabalhei. Fui pintor, marceneiro e carpinteiro. Meu pai lia a literatura de cordel para nós em casa. Aos 20 anos, comecei a comercializar o cordel em feiras e praças. Fiz gravura e ilustrei. Vendi, fui bem sucedido. Turistas do Rio de Janeiro me descobriram em Bezerros e mostraram para Ariano (Suassuna, escritor pernambucano) que passou a dizer que eu era o melhor gravador popular do nordeste. Uma semana depois começaram a aparecer as pessoas de todos os lugares. Fui aperfeiçoando, captando os temas.
A escola
Passei apenas 10 meses na escola, de 1947 para 48. Tinha uns 12 anos. Era uma escola particular num sítio. Aprendi as primeiras letras, a carta do ABC. O professor redigia e a gente ia copiando. O quadro negro era individual, era de pedra e o giz também era de pedra. A gente aprendia contas, dava lição da carta de ABC, do quadro de tabuada. Tinha uma página de manuscrito de um paleógrafo português (livro escolar destinado ao aprendizado das letras manuscritas), que a gente fazia cópias de carta. A gente aprendia uma reza. Na sexta-feira não tinha aula, era dia de argumento. O professor perguntava tudo o que ensinou na semana. Com dois alunos, o professor perguntava, por exemplo, quanto era 9 vezes 9. Quem respondesse mais rápido e certo e ainda falava os nove fora, tinha direito a dar um bolo (com palmatória) no outro. Quando os dois erravam o professor dava o bolo nos dois. Eu argumentava com alunos com três anos de escola. O professor foi embora e a gente ficou sem escola. Eu aprendi pouco mas procurei me aperfeiçoar.
O gravurista
Trabalho nas gravuras com o dia-a-dia da região, a pecuária, as lendas o folclore rico. A gravura surgiu em minha vida como necessidade de ilustrar o cordel. Depois surgiram os turistas pedindo gravuras maiores. Eu era tão ingênuo que não sabia para o que eles queriam. Foi numa galeria que eu percebi que o povo gosta das minhas gravuras porque elas retratam mais. Desenho direto na madeira, preparo a madeira e parto para riscar direto. Comecei a fazer gravura em preto-e-branco. Contribui muito para elaborar a divulgação. A escola da minha cidade era para aprender a ler. Agora, com o cordel difundido as pessoas estão estudando e pensam: 'O mundo gosta disso, agora vamos gostar'. Criei carrinho para tirar cópia, a técnica de pintura em cores numa matriz só. Não pode demorar muito para fazer senão a tinta seca. Dá duas cópias por vez. Algumas gravuras tem gracejo como''Lua de Mel de Matuto''.
O Cordel
Comecei a escrever cordel aos 29 anos. Eu escrevia e tinha vergonha de mostrar. Guardei muitos anos os escritos. Um amigo disse ''esse teu é muito bem arrumadinho''. Do primeiro que publiquei vendi 2 milheiros rapidamente. Hoje tenho 220 originais e a maioria esgotado. Nem todos são para o povo. Tem alguns de encomenda para projeto de governo, louvação de pessoa e até de propaganda comercial. O cordel teve auge dos anos 30 até os anos 80. De 1997 até 2000 o cordel chegou à beira da cova. Nos anos 80, de 10 mil de cada título, vendia em 6 meses. Em 2000, 500 exemplares demoravam dois anos para vender. Os cordelistas de feira e praça acabaram. Os jovens não se sujeitam a fazer isso. Os velhos estão cansados, não tem mais físico. A melhora agora é por conta dos estudantes, das entidades culturais. Antigamente o cordel era vendido nos sítios, nas fazendas, periferias, feiras e praças. O cordel bole com muitas raízes, aí o cordelista aborda a palavra e mescla muito. Um cordel é feito de métrica, rima e oração. A métrica e a rima servem como medida para não desencaixar e dar o tempero da poesia. A oração é para não fugir do assunto.


