Arte sem conservação
PUBLICAÇÃO
sábado, 05 de setembro de 1998
Érika Pelegrino 
As obras de arte públicas são parte da herança cultural que uma comunidade deixa para seus descendentes. Quem cuida destas obras em Londrina? A cidade conta com pelo menos duas bem conhecidas: Monumento ao Passageiro, de Henrique Aragão, e o Monumento à Bíblia, do arquiteto Panayotes Saridakis, com 10 e 20 anos respectivamente.
Depois de tantos anos de instalação estas obras permanecem sem manutenção adequada, pela falta de um setor público responsável por elas. Segundo a secretária de Cultura, Ângela Marçal, a Prefeitura de Londrina elaborou um projeto que visa fazer o diagnóstico do patrimônio cultural da cidade. A primeira parte do projeto - cadastrar as praças e áreas verdes com seus monumentos - já foi concluída. Embora o projeto exista há dois anos, a sua segunda etapa - que consiste em fotografar as praças, as obras e preencher uma ficha técnica de cada uma delas - ainda não foi realizada, segundo Ângela Marçal.
A secretária afirma que este trabalho deverá ser feito com a estruturação da diretoria do Patrimônio Artístico e Histórico Cultural. Ainda estamos trabalhando neste sentido, por enquanto temos apenas três funcionários, alega.
Embora esteja ainda no plano das intenções, Ângela Marçal diz que o trabalho de preservação das peças deverá ser feito em conjunto com o recém-criado Patrimônio Histórico e Artístico Cultural, do Ippul (Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Londrina). É um trabalho que precisa de um arquiteto para ser realizado, alega.
O artista plástico Henrique Aragão diz que Londrina ainda é deficitária neste sentido. Além de não cuidar dos reparos necessários para a preservação da arte pública, ainda a trata com certo descaso. O Monumento ao Passageiro, próximo à rodoviária, nem sequer foi instalado como o artista o concebeu.
Segundo Henrique Aragão, o projeto previa, além da escultura, a revitalização da praça que receberia quatro colunas com refletores para iluminar a obra externamente. Estas colunas teriam vasos grandes com plantas e bancos. O piso da praça seria de concreto. Colocaram apenas a escultura e não fizeram a praça, afirma Henrique Aragão. Sem a praça, a obra não está completa. Do jeito que está, apenas com a iluminação interna, a escultura parece mais uma vela.
Letícia Faria salienta que a ambientação - a praça, no caso do Monumento ao Passageiro - é essencial para que o conteúdo da obra não seja alterado. Se o artista concebeu sua obra de uma determinada forma é para ser vista desta forma, senão perde sua força de expressão, diz.
A artista plástica explica que o trabalho de um artista passa por três fases: concepção, execução e preservação. Se for construir para destruir, a arte não cumpre seu papel. A manutenção é primordial, afirma. Tem que existir um setor específico que cuide da recuperação da arte pública, complementa.
A população também tem sua parcela de responsabilidade na consevação desta herança cultural. Henrique Aragão cita o caso da obra da artista plástica Vanda Pepiliasco que, envolvida em um caso policial, teve sua obra depredada pela comunidade. Em Ibiporã está sendo feito um trabalho de conscientização de alunos para a necessidade de preservação do patrimônio cultural da cidade, afirma.
As esculturas de Henrique Aragão que estão no Museu ao Ar Livre de Ibiporã foram pichadas diversas vezes. São pichações vulgares que denunciam não só a falta de cultura da nossa juventude, mas a falta de instrução, diz. Para Henrique Aragão, este é o retrato da juventude brasileira. Uma juventude sem trabalho e que tem como diversão apenas o chopinho no final de semana. Como esta juventude pode ter cultura para preservar a história? Para quem tenta construir a história com o próprio trabalho, existe uma dor muito grande em perceber isto.
O projeto de conscientização dos jovens é apenas um entre outros projetos. Uma ONG está sendo criada em Ibiporã com o objetivo de tratar das questões do desenvolvimento do cidadão. A cidade tem ainda um trabalho de preservação da arte pública.
O diretor executivo da Fundação Cultural de Ibiporã, Júlio Dutra, explica que a manutenção é realizada sob orientação do artista que criou o trabalho, em conjunto com funcionários da prefeitura. Na opinião de Henrique Aragão, o poder público de Londrina também deveria ter este cuidado com suas obras. Mas esta é uma cidade ingrata, desabafa. Por ser nova não tem memória, não tem história. É um descaso de pessoas da comunidade e da administração, que não percebem que precisam de referências para a vida delas.
Apesar da falta de cuidados com suas obras de arte, para estes artistas é fundamental que a arte esteja perto do povo. Henrique Aragão considera que é uma forma de levar a cultura artística sofisticada para a massa. Isto é feito desde a pré-história, revelando a necessidade do homem de se comunicar através da imagem com os outros homens. É uma necessidade cultural do artista de comunicar suas idéias, sua visão de mundo, analisa.
Para Letícia Faria, a arte só cumpre sua função quando entra em contato com o público em geral. A arte em si não distingue as pessoas por nível cultural ou econômico, porque a linguagem, a mensagem, o conteúdo dela ultrapassam tudo isto. A arte fala do homem para o homem, afirma.César AugustoMonumento à Bíblia, de Panayotes Saridakis: construído há 20 anos, permanece sem cuidadosCésar AugustoMonumento ao Passageiro, de Henrique Aragão: mal instalado em local que deveria ser praçaSem um trabalho
de conservação,
obras de arte
instaladas em
áreas públicas de
Londrina sofrem
danos


