Arte que transforma
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 05 de setembro de 2016
Marian Trigueiros<br>Reportagem Local 


Quem tem mais de trinta anos, certamente recorda-se dos pedaços de pano e das mãos de fora das grades do antigo Cadeião da Sergipe, em Londrina. Imagens tão marcantes quanto as inúmeras pessoas que passaram por lá e que protagonizaram cenas de rebeliões, superlotação, fugas, denúncias de maus tratos no prédio que funcionou por mais de 50 anos como cadeia pública. Localizado em plena área central seu funcionamento tornou-se inviável com os anos. Até que, no início da década de 90, os presos foram transferidos para outras unidades e o prédio desativado.
Em estado degradante, a demolição do local era certa, já que havia ordem do Governo do Estado. Em um episódio famoso, um trator pronto para dar início à derrubada foi impedido por alunos e professores da Universidade Estadual de Londrina (UEL). Ao ver aquele aglomerado de pessoas em frente ao veículo, o tratorista disse ao então Secretário de Segurança: "Sinto muito, doutor, mas contra gente eu não posso ir", frase citada pelo escritor Domingos Pellegrini, no livro "A arte da transformação". Pellegrini foi um dos que se colocaram em frente ao trator juntamente com o professor de Arquitetura da UEL Marcos Barnabé.
Após anos desativado e abandonado, uma parceria com o Sistema Fecomércio Sesc Senac Paraná fazia nascer um projeto audacioso: transformar um cenário de horror num espaço de cultura. O que muitos achavam impossível de acontecer, concretizou-se em dezembro de 2014, no dia do aniversário de 80 anos da cidade de Londrina. Totalmente reformado - e não restaurado -, o prédio, que mantém algumas partes da estrutura original como duas celas histórias e as simbólicas grades, abria as portas para a população.
Desde então, agora com o nome de Sesc Cadeião Cultural, o local é palco para diversas atividades de cunho cultural em várias frentes. No interior, sala de espetáculo, cinema, galeria de arte, atelier de arte, sala de leitura, sala de ensaio, salas de oficinas e cursos, além de um aconchegante espaço de café-escola voltado à educação profissional. O prédio é aberto ao público das 10 às 21 horas, de terça-feira a domingo, para as diversas programações, incluindo visita guiada gratuita que pode ser solicitada por qualquer pessoa, incluindo escolas e instituições.
Alunos do quarto ano da Escola Municipal Prof. Maria Tereza Meleiro Amâncio tiveram a oportunidade de conhecer parte dessa história na visita ao prédio como parte das atividades do projeto Folha Cidadania. Lá, acompanhados da monitora Viviane Feitosa, andaram pelo interior, conheceram as novas áreas, viram de perto as duas celas históricas que preservam integralmente a estética original da época carcerária, conversaram com o artista da exposição em cartaz e ainda participaram de oficinas de artes, música e teatro.
Em um bate-papo descontraído, puderam perguntar pessoalmente todas as curiosidades do trabalho do grafiteiro Huggo Rocha, autor da exposição solo "Amor e Tinta", que reúne sete obras. "A ideia da exposição foi trazer um pouco do que faço nos muros das ruas para cá. Nesse trabalho, usei somente spray misturando algumas técnicas. Os desenhos foram feitos diretamente na tela e, alguns, tendo a parede como extensão. Muita gente tira foto dos meus grafites nas ruas. Agora, quem quiser, poderá levar para casa o meu trabalho, o que não há como fazer com o grafite na rua."
Com traços bem marcantes, sobretudo nos olhos puxados que estão em todos seus desenhos, ele contou aos alunos um pouco de sua trajetória e como iniciou no grafite, há 16 anos. "Ao longo dos anos fui aperfeiçoando minha técnica e criando um identidade nos desenhos. Quem vê meu trabalho em algum lugar sabe que é de minha autoria; isso é importante para um artista. Apesar de ser difícil viver dessa arte, principalmente pela falta de apoio financeiro porque é muito caro, fazer grafite é viciante e muito prazeroso", conta.
Logo em seguida, os alunos puderam conhecer mais da nova estrutura, outras exposições em cartaz e participar das oficinas de arte, música e teatro. "Muitas crianças sequer viram uma exposição na vida. Além da história do local, aqui, têm contato com esse universo da arte. Já nas oficinas, podem vivenciar um pouco da arte-educação e as múltiplas linguagens artísticas em que experimentam a improvisação e criatividade. É apenas o primeiro contato que desperta a curiosidade para uma outra realidade", explica Viviane Feitosa, técnica de atividades e Artes Visuais.
As solicitações para visitas com oficinas podem ser feitas pelo telefone (43) 3572-7700.



