Arte que liberta
PUBLICAÇÃO
sábado, 14 de março de 2015
Ana Paula Nascimento<br>Reportagem Local 
Dizem que é do caos que vem o cosmo, e, num sentido bem concreto, é o que se pode dizer da transformação do antigo "Cadeião" de Londrina, no agora Sesc Cadeião Cultural. Em uma ação inovadora, que ainda pretende intervir em toda a quadra - o que inclui a desativação da 10ª Subdivisão Policial -, a ideia do Sistema Fecomércio Sesc Paraná é transformar um espaço que já foi sinônimo de tristeza e morte em um polo produtor de arte. O termo de comodato prevê o uso do espaço por 20 anos, renovável por mais 20.
Entregue como um presente pelos 80 anos da cidade, no ano passado, a reforma do novo Cadeião é fruto de um investimento de quase R$ 4 milhões. A estrutura original do prédio da década de 40 está mantida. Do lado de fora, com a pintura novinha em folha, a guarita ainda está lá, lembrando-nos logo de cara que aquele lugar durante 50 anos foi uma cadeia, que enfrentou problemas de superlotação, violência e torturas (para mais informações, vale a pena conferir os livros "Escândalos da Província" (1959), de Edison Maschio; "Dos Porões da Delegacia de Polícia" (1979), de Marinósio Filho; "Noites Ilícitas: histórias e memórias da prostituição", (2005), de Edson Holtz Leme e "Terra Vermelha" (1998), de Domingos Pellegrini).
Na entrada principal, pela Rua Brasil, um buraco na parede, com os tijolos originais à vista, é a marca registrada da ação para destruir o antigo prédio, na década de 90. Na foto histórica, publicada na Folha de Londrina, e que estampa a parede do hall de entrada do Sesc Cadeião Cultural, podemos ver o então secretário de segurança pública José Tavares em pé, em um trator, numa negociação acirrada com professores e alunos de Arquitetura da Universidade Estadual de Londrina, comandados por Marcos Barnabé, em uma tentativa frustrada de convencer a todos que o melhor era destruir a edificação que se tornara, de certa forma, um arquivo do "lado B" da nossa cidade.
Transformação
Inevitável questionar os funcionários se alguém, mais sensível (ou sensitivo, como preferem alguns) teria passado mal devido ao histórico de sofrimento do local. "Alguns passam mal, dizem que sentem coisas estranhas, mas a maioria vem com uma imensa curiosidade e acaba se encantando com o que vê", admite a técnica de atividades Yuka Toyama Borges, transferida do Sesc Londrina para o novo espaço. "Aqui o sol continua nascendo quadrado [as grades originais foram mantidas nas janelas], mas há vida neste espaço e, hoje, podemos dizer que respiramos cultura neste lugar", atesta.
A parte triste da história oficial também foi preservada: duas celas muito simbólicas foram mantidas no térreo. Nas paredes, entre recortes de revistas pornográficas, destacam-se desenhos coloridos de personagens infantis talvez uma tentativa meio distorcida de se preservar, de algum modo, uma infância perdida ou uma certa inocência diante de um cotidiano repleto de horrores.
"Nós recebemos, após a inauguração, a visita de um ex-detento, que chegou a ser preso nove vezes aqui. Ele contou que fez questão de vir conhecer o prédio após a reforma e saiu emocionado e satisfeito com a transformação daqui", acrescenta Yuka, sem saber, infelizmente, o nome do egresso.
Para todas as artes
Além do "Espaço Memória", onde estão as celas preservadas, o que se observa é uma série de detalhes minuciosos em prol da cultura. No pátio, onde antes os encarcerados tomavam banho de sol, hoje há um café cultural, o Café-Escola Senac, que serve cafés gourmet e quitutes saborosos. Como uma espécie de solário, o telhado de vidro com película especial retém uma boa parte do calor e permite que o ambiente seja invadido com uma luz natural, que até beneficia a observação das obras de arte disponíveis na galeria montada no local (até o dia 31 está em exposição a mostra fotográfica "Incrível como um distúrbio afeta a credibilidade", de Rogerio Ghomes). Um mezanino é uma novidade bem-vinda no espaço e sofás confortáveis compõem o ambiente propício para o lançamento de livros e atividades afins.
No andar de cima, as antigas celas viraram salas de aula e semanalmente são oferecidos para crianças cursos gratuitos ligados à arte-educação, como música e teatro. Na Sala de Espetáculo, é possível assistir a peças teatrais e à programação do CineSesc (suspensa temporariamente por problemas técnicos).
Além disso, na Sala de Leitura, o cliente Sesc tem à disposição, para consulta local e empréstimo, aproximadamente 3 mil títulos, além de textos em dramaturgia e um banco de partituras. Já a Sala de Ensaio serve para a realização de ensaios artísticos, cursos e workshops. No Espaço Conexão, internet livre, oficinas dinâmicas e curso de introdução à informática.
SERVIÇO
Sesc Cadeião Cultural
Onde R. Sergipe, 52
Informações - (43) 3572-7700 e www.sescpr.com.br
LEIA MAIS
'Aquele lugar é assombrado'


