Arte que imita a vida
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sábado, 10 de novembro de 2012
Alex Francisco <br> Folhapress 
São Paulo - Rodrigo Sant'anna, 31 anos, é a prova de que a arte imita a vida. O ator já se apresentou dentro de um vagão de metrô sem nem imaginar que, um dia, seus personagens fariam sucesso nesse mesmo espaço, só que na televisão - ou seja, no ''Metrô Zorra Brasil'', do ''Zorra Total'' (Globo).
Dono de bordões que viraram febre nacional -''Ai, como eu tô bandida'', da travesti Valéria Vasques, e o ''Curicença, dá cinquenta centarro'', da pedinte Adelaide -, o carioca nascido em uma comunidade de Vila Isabel, na zona norte do Rio de Janeiro, usou os trejeitos de pessoas com quem conviveu para representar os tipos hilários que hoje fazem tanto sucesso na TV. ''A inspiração vem dos lugares por onde passei e das aventuras que vivi. Se tivesse nascido no Leblon, jamais teria criado tipos assim'', conta, referindo-se ao bairro da zona sul do Rio.
A vontade de ingressar no meio artístico surgiu quando Sant'anna ainda morava no morro dos Macacos, aos 15 anos. Aos 18, pediu à mãe um curso de teatro como presente. ''Ela era contra essa ideia de eu ser ator. Era uma coisa muito inusitada para a minha realidade'', lembra ele.
Nos primeiros anos de teatro, conheceu a atriz Thalita Carauta. Desde então, os humoristas trabalham juntos em espetáculos pelo Brasil e também na televisão. Ela vive as personagens Clarete, Janete e dona Santinha, no ''Zorra Total''. ''São 12 anos de amizade. Respeitamos o trabalho um do outro. No nosso humor, não há disputa, nós esperamos o outro cumprir seu papel, e isso soa como química para o público'', define o ator.
Foi de olho em uma oportunidade na Casa de Arte da Laranjeiras, por onde passaram os atores Patrícia Pillar e Murilo Benício, entre outros, que Sant'anna, aos 20 anos, abandonou o emprego como atendente de telemarketing. Três anos depois, fez participações em séries da Globo e chamou a atenção de Renato Aragão.
Durante os quatro anos em que viveu o Dodô, de ''A Turma do Didi'' (Globo), o ator conta que teve verdadeiras aulas de humor. ''O Renato tem muito humor físico, daquele que consegue dar com a cara na porta e nos fazer rir. Isso é difícil para um ator.''
Em 2009, Sant'anna foi convidado pelo diretor Maurício Sherman para o novo time do ''Zorra Total''. Coube ao ator criar seu primeiro sucesso: o mulherengo Admilson, ex-namorado da glamorosa Lady Kate (Katiuscia Canoro). Em seguida, foi a vez de Valéria Vasques e, recentemente, do casal Adelaide e Jurandir. Sempre com bordões que divertem o público.
Assim, na rua, longe dos personagens, o ator experimenta a reação do público. ''As pessoas se impressionam, por que sou muito na minha, muito normal. Eu prefiro meus personagens a mim. Eles não são tímidos'', brinca.
Após a fama, o humorista conta que pouca coisa mudou. ''Consegui trazer minha mãe para morar comigo na zona sul, mas continuo bebendo café com leite pela manhã'', conta Sant'anna, que estreou, recentemente, a peça ''O Patrão'', no Rio de Janeiro, e se prepara para viver o Burro na versão brasileira de ''Sherek, O Musical'', com estreia prevista para dezembro.
O humorista revela que passa por um período difícil a cada personagem. ''É uma angústia. Eu não relaxo. Sempre penso que ele passou e fico procurando por um outro tipo e bordão que ganhe o público'', diz.
Trabalhos polêmicos
Embora Valéria e Adelaide arranquem gargalhadas de uns, elas já desagradaram outros tantos. No ano passado, o Sindicato dos Metroviários de São Paulo exigiu que o quadro ''Metrô Zorra Brasil'', do qual a travesti faz parte, fosse tirado do ar por ter um suposto incentivo ao assédio sexual.
Já a pedinte foi denunciada por racismo por telespectadores e ONGs. Segundo Sant'anna, o humor das personagens é inspirado na realidade. ''Minha arte é a maneira de contar minha vida. Manoel Carlos [escritor de novelas] fala do Leblon, e eu falo do que eu vivi. Não tem glamour. E, também, não há intenção de deboche. Trato os personagens com verdade'', rebate.
Sant'anna conta que parte de sua inspiração para criar Adelaide veio de sua avó, Adélia Rosa, de 86 anos. ''Ela é semianalfabeta, usa dentadura, tem nariz largo. Ela, além de algumas outras pessoas, foi a referência que me ajudou a criar a personagem'', afirma.


