Arte que cativa e incomoda
Elisa Marilia Carneiro
De Curitiba
A pintura de Josué Demarche começa com uma camada de cor que, depois de seca, é raspada e novamente outra tinta é acrescentada. Como num jogo de sombra e luz, tensão e equilíbrio. A exposição do artista plástico catarinense, que vive entre Curitiba e Toronto (Canadá), será aberta hoje, às 20 horas, na sala Aleijadinho, no prédio da administração da Pontifícia Universidade Católica do Paraná.
Pinto o estado de espírito. Um retrato não tem graça. É preciso mostrar o nosso outro lado. Demarche reconhece que a sua pintura não tem mercado no Brasil. Desde 1984, vive no Canadá, onde todas as suas telas são facilmente vendidas. Aqui, ainda há reversas para consumo de figurativo na linha expressionista, afirma.
Não é só pelo estilo pelo qual optou que Demarche espanta. Para produzir os quadros, o artista plástico usa uma faca grande de cozinha numa mão e tubos de tinta óleo noutra. São camadas grossas trabalhadas com muito gestual, muita matéria. Segundo o professor de Estética e História da Arte, Fernando Bini, a matéria e a cor se confundem com os verdadeiros temas. Mas o conjunto de figuras espectrais que surgem dessa confluência, nos perseguem como fantasmas, memórias do esquecido, não uma aparição mas traços deixados de algo acontecido, figurável porque se refere ao real.
Demarche reconhece que as figuras de seus quadros falam com a gente. O espectador é forçado a parar, refletir. Quando as pessoas passam, voltam como atraídas por um ímã. Ele conta que quando esteve expondo em Paris, em maio do ano passado, era comum as pessoas pararem na calçada ou voltarem para observar melhor o quadro que ficava exposto na vitrine (na Europa é comum as galerias colocarem quadros nas vitrines).
O quadro síntese de todo o seu trabalho é O Profeta (1997), que também estará exposto em Curitiba. Os quadros que marcam muito ficam para a minha coleção particular. Não os vendo. Entre esses, os curitibanos poderão conhecer também a Santa Ceia e a Bailarina. No total, essa exposição terá 25 trabalhos em diversos tamanhos.
Perturbadora, a obra do catarinense trabalha o elemento plástico em mensagens sociais e políticas. Trato dos abusos, da arbitrariedade, da injustiça, do poder econômico mal distribuído. Talvez por isso, os brasileiros não gostem muito.
Em Curitiba, Demarche trabalha num ateliê na casa dele em Santa Felicidade, onde também tem uma chácara para descansar, passear de barco pelo lago e desfrutar da natureza. Às vezes pinto natureza morta, frutas e paisagens só para variar, mas tudo dentro do estilo expressionista.
Demarche conta que nunca havia imaginado ser possível viver da arte. Mas em 1984 foi para o Canadá, onde já vivia um irmão, e começou a trabalhar em fazendas. Até que um crítico de arte conheceu o seu trabalho na casa de um amigo. De lá para cá só vivo da minha arte. Tenho contrato de exclusividade com a Moos Galery, de Toronto. Por isso, as telas expostas aqui no Brasil, não estão à venda, explica. Depois os trabalhos serão expostos em Nova York.
Exposição do artista plástico Josué Demarche. Hoje, às 20 horas, na sala Aleijadinho, no prédio da administração da Pontifícia Universidade Católica do Paraná, em Curitiba. A individual permanece até o dia 19 de maio.Exposição de Josué Demarche abre hoje em Curitiba com telas perturbadoras em que predomina o expressionismo
DivulgaçãoMelancia, uma das telas de Josué Demarche em exposiçãoDivulgaçãoO Profeta: tela sintetiza a obra de Josué DemarcheJosé SuassunaJosué Demarche: Pinto o estado de espírito, um retrato não tem graça





