A tradição milenar da tecelagem dos países andinos é o foco de uma nova exposição que já está aberta no Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand, o Masp, desde a semana passada. São mais de 100 peças de tecido encontradas nos territórios que hoje representam Bolívia e Peru. Algumas, datam de mais de dois mil anos antes das invasões europeias à América.

Se as peças de tecido, em si, já são raridades, vê-las expostas é uma oportunidade igualmente rara. Apenas dois museus brasileiros tinham incorporado aos seus acervos peças arqueológicas da América pré-colombiana, o Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo e o Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Toda a coleção pré-colombiana do Museu Nacional, porém, foi perdida no grande incêndio que atingiu a instituição no ano passado.

Os objetos expostos no Masp, porém, são de uma coleção particular. Em 2016, o museu assinou um comodato com a Coleção Edith e Oscar Landmann, cujos tecidos integram a atual exposição e que conta ainda com outros tipos de materiais pré-colombianos, como cerâmicas e metais, que serão vistos em mais exposições no Masp. Pelos termos do comodato, o empréstimo das obras será por um total de 10 anos.

A exposição dos têxteis pré-colombianos acontece este ano para integrar o ciclo temático do museu em 2019, “Histórias das Mulheres, Histórias Feministas.” A grande produção de tecidos na região dos Andes foi principalmente feita por mulheres por mais de três mil anos. Ainda hoje, as figuras femininas são as responsáveis por transmitir o conhecimento sobre as tradições e códigos da tecelagem na região.

Nos estudos sobre arte pré-colombiana, a produção têxtil foi por muitos anos deixada de lado. As atuais tecelãs foram de grande ajuda para entender os materiais presentes na Coleção Landmann, de acordo com a curadora da exposição, Marcia Arcuri, uma das poucas pessoas que pesquisam o tema no mundo. "Dentro da área de estudos pré-colombiano, a parte dos tecidos é, de longe, a menos estudada", afirma. "Muito do que se encontra publicado é mais em relação ao caráter de técnica e de conservação do que esse universo do repertório iconográfico e dos simbolismos, que é o meu campo de atuação", explica.

Durante os anos em que o Masp recebeu a coleção até agora, quando se inaugura a primeira das exposições, foram feitas grandes pesquisas e seminários, com a presença de nomes internacionais, como a pesquisadora britânica Denise Arnold, que estuda a produção têxtil na Bolívia.

"A Denise Arnold têm um intenso trabalho com as comunidades indígenas e com as tecelãs atuais. O conhecimento é milenar. É muito importante dar voz a essas mulheres que carregam a transmissão dos saberes. Muito dos códigos são os mesmos até hoje", diz a curadora. Um texto de Arnold está no catálogo da exposição.

De acordo com Arcuri, é importante trazer a exposição no ano dedicado às mulheres porque muitas das artesãs responsáveis pela produção têxtil pré-colombiana podem ter alcançado posições de destaque em suas sociedades. "Os contextos em que as peças foram encontradas nos dizem muito sobre o status que essas mulheres tinham. Quando você encontra um tear, usado para confecção, ao lado de uma mulher enterrada numa tumba de elite, num templo sagrado, forma uma gramática que nos conta o protagonismo dessas mulheres, inclusive no mundo político e religioso."

Mas a principal ideia em esperar as pesquisas serem feitas especificamente sobre a Coleção Landmann teve como objetivo apresentar uma exposição que não trouxesse explicações gerais sobre o tema, mas que desse aos visitantes detalhes sobre cada uma das peças expostas, segundo a curadora. "Fez parte do processo a pesquisa sobre as peças. Eu já tinha um conhecimento prévio, mas longe de entender toda a coleção", afirma. "Para a pesquisa, o melhor caminho foi o tempo de estudo, para trazer ao público não apenas o que já havia sido pesquisado, mas informações sobre cada uma das peças."

Diferentes culturas

Os tecidos foram recuperados principalmente em sepulturas das elites governantes. Muitas das peças são trajes de pessoas consideradas nobres de diversas culturas que passaram pela região. Os têxteis da Coleção Landmann foram atribuídos às culturas Chavin, Siguas, Paracas, Nasca, Moche, Hari, Lambayeque, Chimu, Chancay, Inca e Ica, que ocuparam os atuais territórios de Bolívia e Peru entre 800 a.C. e 1532 d.C..

A diversidade se reflete também em diversas técnicas, cores, símbolos e formatos dos tecidos expostos no Masp.

A disposição das vitrines com os tecidos, no salão expositivo do segundo subsolo do Masp, não foi feita numa ordem cronológica, mas por diferentes grupos de peças que parecem corresponder a uma mesma cultura. Para chegar a esse resultado, a pesquisa usou alguns pontos de referência.

"A coleção reúne peças que dialogam com exemplares de outras instituições. Ter peças que são irmãs de outras, num sentido técnico e conceitual, nos permite ter um maior rigor de interpretação delas", explica Arcuri. "Uma peça isoladamente gera fascínio, mas seria muito forçado inserir interpretações em cima de um símbolo, geralmente porque a gente partiria de um repertório nosso ocidental."

Por isso, foram reunidos grandes conjuntos de peças. "Para separar elementos que compõem o estilo visual de cada peça que se repetem e entender as filiações culturais", analisa. "Quando a gente chama, por exemplo, tecidos de Chavin, não estamos falando que Chavin era um povo, e sim o sítio arqueológico em que essa simbologia aparece mais."

Para a pesquisadora, não é possível fazer atribuições étnicas sobre as peças. "A gente observa a partir do estilo artístico. E isso vale para tecidos, cerâmicas e a arqueologia como um todo."

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