''Arte pela arte'' era o lema dos artistas modernistas do início do século 20 e final do 19, que acabou se transformando em matéria de especialistas em busca de um ideal a ser alcançado, de modo paradoxal, em nossa sociedade de consumo, que prefere o entretenimento à intelectualização.
Vai ver que é por isso que as pessoas ainda têm uma visão de instituições artísticas como algo ou muito ''chic'' ou abrigo de coisas velhas, que não servem mais. Duas visões que afastam o público dos museus. Mas há, também, o museu do Hélio Leites, multiartista e agitador cultural uma espécie de professor Pardal das artes plásticas de Curitiba. Criador de museus ''mínimos'', que podem durar alguns minutos ou poucos dias, instalados, por exemplo, no beiral de alguma janela, fazendo exposições de trabalhos de arte. O interessante, aqui, é que a própria ação de fundar uma instituição já se apresenta como trabalho de arte. Assim, podemos pensar que o próprio processo de criação acaba se tornando em uma manifestação artística, o que faz de qualquer cidadão um ator em potencial desse tipo de evento.
Desde pelo menos os anos 60, a arte não pára de pregar a ''participação do espectador'' na obra. Era esse o desejo de realização dos trabalhos do movimento ''neoconcretista'', particularmente potencializados nos casos de Lygia Clark e Hélio Oiticica, por exemplo. Depois as coisas foram se embolando, cada vez mais. Não só a obra passa a ser motivo para tirar o espectador de sua ''passividade'', mas a própria ação já é uma proposta onde qualquer um pode se tornar agente dessas intervenções, mesmo que elas se pareçam com tudo, menos com o lugar-comum onde se espera um acontecimento de apreciação estética.
Em um concurso de intervenções urbanas, recentemente lançado em Santa Tereza, no Rio de Janeiro, a artista Fernanda Gomes ''escondeu'' mil moedas de um real pelo bairro. Coisa boa, além de participar de uma ''obra'', as pessoas também podem levar um troquinho para casa. E até fazer como Cildo Meireles, em ''os cem'', pegando cem cédulas de um certo valor e colocando o material à venda, como objeto artístico, por um preço bastante superior ao seu valor nominal. Inserções abertas em circuitos fechados.
Assim, se toda manifestação cultural é passível de ser transformada em arte, então é possível retornar ao velho chavão modernista da ''arte pela arte'', mas agora não mais pensada em categorias autônomas e isoladas, mas abertas a relações e conexões com os fatos da existência, as coisas do dia-a-dia, onde tudo se torna instituição de arte, um grande museu.
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