Arte para gerar choque
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quinta-feira, 05 de dezembro de 2002
Katia Michelle<br> Equipe da Folha 
Curitiba - Responda rápido o que seria capaz de provocar a sensação de choque neste exato momento. Uma obra de arte que desperta estranheza ou mais uma notícia de chacina familiar ou tragédia semelhante? Situações (ou coisas) chocantes podem ter se perdido na banalização da realidade, mas uma exposição promovida pelo programa Rumos, do Itaú Cultural, quer provar o contrário. A mostra ''O Discurso do Choque'', que abre hoje em Curitiba, traz cinco dos 69 artistas selecionados pelo programa e que criaram obras com a intenção de despertar (pelo menos) uma espécie de abalo emocional em quem as observa.
A curadora da mostra, Juliana Monachesi, tem uma explicação para a escolha do tema. ''O discurso do choque refere-se à abordagem, pela produção artística, dos traumas e pulsões mais universais do ser humano. São trabalhos que pegam o espectador pelo estômago, como, aliás, toda boa obra de arte costuma fazer'', disse, através da assessoria de imprensa do Itaú Cultural. De acordo com Juliana, a mostra foi concebida na busca do questionamento sobre o ser humano, expondo imagens que provocam reflexões acerca da estranheza, morbidez, repulsa e morte. Temas que, diga-se de passagem, são bastante fartos na realidade de qualquer cidade.
Para expressar essa temática, os cinco artistas da mostra optaram por técnicas diferentes e diversificadas. A paulista radicada no Rio de Janeiro Ana Laet, por exemplo, fez uma instalação com cabides, capa de couro rústico e fotografias impressas em plástico-cristal. A obra ''Você é o que você come'' integra o trabalho atual da artista, que procura uma poética centrada no corpo. O resultado da obra é a semelhança com invólucros de carne humana, dispostos em um display, oferecidos para alimentar pessoas.
O também carioca André Santangelo, radicado em Brasília, mostra a obra ''Sobre os olhos e as gotas''. Trata-se de uma instalação com aquários, peixes, cristal, sal grosso e televisão e vídeo. O desconforto e a estranheza ficam a cargo da água sendo retirada aos poucos do aquário.
O baiano Caetano Dias participa com uma série de trabalhos desenvolvidos a partir de imagens de sites pornográficos da internet, nas quais intervém digitalmente, mudando textos e desfocando fotos para flagrar a abjeção em seu estado bruto. O resultado ganhou o nome de ''Todos os santos de todos os dias''.
Também utilizando a intervenção em imagens, Odires Mlászho transforma retratos de uma revista dos anos 70 em máscaras mortuárias com expressões vazias e olhos vazados. Mlászho é o único paranaense da mostra. Nascido em Mandirituba em 1960, ele mora e trabalha atualmente na capital paulista. Na exposição ''O Discurso do Choque'' mostra a obra ''Antecâmara da Máscara VII''. Também integra a exposição, a videoinstalação do carioca Bruno de Carvalho. Na obra, ''Vis-ita'' o artista reproduz uma endoscopia conduzindo o público a passar por um túnel de tecido.
O programa Rumos Itaú Cultural Artes Visuais tem o mérito de incentivar o trabalho de novos artistas. Seleciona os trabalhos recebidos e promove o acompanhamento dos trabalhos por meio de curadoria. Após o acompanhamento, apresenta uma série de mostras pelo País, como a que abre hoje em Curitiba.
A exposição marca também a abertura da programação de exposições do Museu de Arte da Universidade Federal do Paraná (Musa). Com um acervo (e organização) capaz de causar inveja até mesmo a novos museus, o Musa fica no primeiro andar do prédio da UFPR, na praça Santos Andrade.
Serviço: Exposição ''O Discurso do Choque'', abertura hoje, às 19 horas, no Museu de Arte da UFPR (Praça Santos Andrade. Em cartaz até 22 de fevereiro de 2003, de segunda a sexta, das 9 às 18 horas e aos sábados, das 9 às 13 horas. Entrada franca.


