Arte para apreciar. Arte para instigar.
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segunda-feira, 28 de agosto de 2006
Ana Paula Nascimento<br> Reportagem Local 
Diante de quatro peças, maiores do que eles, na obra batizada de ''As Guardiãs'', da artista plástica Letícia Marquez, os alunos da 4 série do Colégio Estadual Gabriel Carneiro Martins tiveram o seu primeiro contato com a exposição ''Londrina Artes Visuais'', que ficou de 3 a 27 de agosto na Casa de Cultura e no Museu de Arte de Londrina. Dividida em oito núcleos temáticos, a mostra foi visitada por um público de cinco mil pessoas, sendo desse total duas mil crianças. Dentro do projeto de visita orientada, elaborado pela Divisão de Artes Plásticas da UEL, tanto adultos quanto crianças tiveram a oportunidade de ter o olhar instigado ao questionamento e à reflexão.
Cheios de admiração e muito curiosos, os alunos acompanharam atentamente as explicações da monitora. De cara, a contemplação da obra que misturou diversas técnicas para expressar uma parte do universo feminino. Abaixo de cabeças femininas representadas artisticamente em gesso, vidros com corações de pano no seu interior. Próxima à esta obra, outra da mesma artista, agora numa versão masculina. Lembrando quatro carrancas, ''Os Guardiões'' mostravam internamente rostos humanos e, na parte externa, rostos de animais que fazem parte da mitologia japonesa. No meio da obra, uma peça de metal suspensa. ''E o que será que ela pode representar?'', pergunta a monitora. Entre as respostas criativas das crianças, uma recorrente é que a peça, que lembra uma esfera, poderia ser o mundo, ''protegido pela força dos homens''. Ao observarem melhor que a imagem deles mesmos estava sendo refletida no metal, novo espanto: ''Será que 'os guardiões' não estariam protegendo as crianças?'', indagaram. Sem uma resposta pronta, o exercício de refletir continuou na observação de outras obras.
Ainda dentro da temática ''Corpo e Identidade'', a turma se deparou com a instalação de Danillo Vila ''Como você se sentiria'', de 2000 , onde em um out-door, colado na parede, podia-se ler diversas frases, provocando o espectador a se imaginar como sendo a ''Carmen Miranda'' ou um ''gorila'', por exemplo. Aliás, um gorila, pintado com a técnica de acrílica sobre tela, como parte da instalação, também chamou a atenção das crianças. No alto da tela, escrito em vermelho ''Para Braque''. Diante de tal detalhe, a monitora explica que foi uma forma do autor da obra homenagear um dos pintores destaques do cubismo movimento artístico do século passado. ''O Danilo só conheceu os trabalhos de Braque através de livros de arte e o seu trabalho foi uma forma de 'dialogar' com pintores mortos. A sua dedicatória foi uma forma de brincar de 'pular no tempo''', destacou a monitora.
O trabalho da fotógrafa e artista plástica Fernanda Magalhães também provocou a imaginação das crianças. Dispostos em prateleiras, vidros de diversos tamanhos continham fotos de temas variados. ''Que legal! Parece uma prateleira da memória, com fotos em conserva'', uma aluna comentou. Ao apontar uma garrafa pequena de Coca-Cola com uma foto do cantor e compositor Caetano Veloso, a monitora questiona qual poderia ser a idéia da artista nessa criação. ''Talvez uma crítica a ele, que está numa fase mais comercial...'', acabou ela sugerindo.
A aventura continuou, passando por outros estilos de trabalho. Entre eles, a ''Poética do Tridimensional'', com trabalhos feitos em ferro fundido, por exemplo, como a peça ''Bruna'', de Renato Good Camargo. ''Bolo de Rolo'', de Letíca Marquez, para as crianças lembrou uma cobra enrolada. Velas de metal colocadas no alto da obra tiveram na releitura de alguns dos alunos uma relação com a passagem do tempo. ''Acho que a artista quis expressar a dor de ter que morrer'', afirmou um aluno.
Na parte de pinturas, o deslumbramento diante de trabalhos mais tradicionais de Jane Bordin e os mais informais e coloridos de José Gonçalves, juntamente com a explicação de que aquele módulo da mostra buscava transmitir os estilos de pintura que marcaram o perídos dos anos 60 até 80 em Londrina, em que a dificuldade de encontrar lugar para expor os trabalhos também motivou a criação do Museu de Arte de Londrina, por exemplo.
No final do ''passeio cultural'', o aluno Guilherme Paes de Almeida, 10 anos, fez questão de opinar sobre o que viu: ''Foi a primeira vez que fui a uma exposição e foi muito bom. Tem artistas até 'bizarros' e acho que a gente tem que tentar pensar como eles para entender o que quiseram dizer com seus trabalhos. A obra que eu mais gostei foi ''Os Guardiões''. A gente pensa e imagina. É um exercício de descobrir o que o outro pensou só pelo contato visual'', disse.
Sua colega de sala, Jussara Aparecida Gusmão, 9 anos, também aprovou a experiência: ''Eu costumo visitar exposições com os meus pais, mas com a turma da escola foi uma novidade e achei muito legal. A obra que mais gostei também foi ''Os Guardiões'', fiquei impressionada com os olhos de vidro''.
Na opinião da professora de Artes Angela Sabatini, a monitoria é fundamental para a compreensão das crianças. ''Na sala de aula, irei fazer uma retrospectiva com elas do que viram aqui e abrir mais espaço para os comentários pessoais. A visita também é importante porque choca, causa um estranhamento. Muitas crianças ainda estão presas ao estereótipo de que a arte está só vinculada ao belo e à perfeição. É uma forma de quebrar paradigmas'', destacou.
A arte-educadora e coordenadora da monitoria, Juliana Miranda de Freitas, ressaltou a procura cada vez maior das escolas pelo projeto da visita orientada. Segundo ela, os estagiários passam por capacitação, que envolve metodologia e estudo aprofundado sobre cada artista com o objetivo de ''traduzir uma linguagem específica em uma mais acessível, sem distorcer os conceitos''. ''Uma boa parte do público traz percepções do senso comum e objetivamos com a visita orientada levantar questões, apontar caminhos, para que as pessoas tenham a própria reflexão'', avaliou Juliana.
A próxima exposição da Casa de Cultura será ''Sobre os Varais'', de Vanda di Carmine, de 14 a 30 de setembro. Mais informações pelo telefone (43) 3324-5663.


