Arte num contexto surpreendente
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quarta-feira, 22 de junho de 2005
Katia Michelle Pires<br> Equipe da Folha 
Curitiba - O fato de ter passado a maior parte da infância em instituições correcionais e estar há quase dez anos internado no Complexo Médico Penal (CMP), em Curitiba, não impediu o interno Benedito Gabriel, de 39 anos, de se dedicar à arte. Na sua segunda internação no complexo, Gabriel passou a participar com mais interesse das atividades artísticas e a produzir cerca de três a quatro pinturas diárias. As obras foram inscritas por funcionários da instituição num edital de ocupação dos espaços da Fundação Cultural de Curitiba e ganharam agenda na Casa Culpi, em Santa Felicidade, numa exposição que abre hoje.
Os trabalhos assinados por Gabriel concorreram com obras de mais de 200 artistas de todo o Brasil, além da França, México e Argentina. ''Para ele foi uma surpresa. Para nós, a confirmação de que arte ajuda a recuperar as pessoas'', conta a pedagoga Ana Maria Bastos Scheider, que há 11 anos trabalha no complexo. Ela percebeu a mudança no comportamento de Gabriel depois que ele passou a se dedicar aos trabalhos artísticos. ''Ele está menos agressivo e consegue refletir sobre seu comportamento por meio dos seus desenhos'', revela.
Durante dez anos, Gabriel só esteve fora do Complexo Médico Penal por seis meses. Em liberdade, cometeu outro crime e voltou para detenção. ''Agora ele tem uma meta. Diz que quando sair, quer se dedicar à arte'', diz a pedagoga que acompanha o tratamento de Gabriel. Ele ainda deve passar por avaliações antes de ter o prazo de libertação definido. Enquanto isso, no complexo, cursa o ensino médio e continua pintando. ''Nas celas, as luzes não se apagam, então ele pinta durante a noite também'', conta Ana Maria.
Para confeccionar as obras, Gabriel utiliza guache, tinta acrílica, giz de cera e o material disponível, que as vezes é escasso. As formas humanas, a natureza e formas geométricas estão sempre presentes nas suas obras. Benedito Gabriel nasceu em 11 de maio de 1966, na cidade paranaense de Santa Mariana. Filho de trabalhadores rurais, pouco conviveu com os pais, e passou parte da adolescência em instituições de amparo sócio-educativo e parte da vida adulta em entidade de custódia e tratamento.
Serviço:
- Exposição ''O Olhar'', com desenhos de Benedito Gabriel na Casa Culpi (Av. Manoel Ribas, 8.450). Abertura hoje, às 19 horas. Em cartaz até 28 de agosto com entrada franca.


