O artista plástico Antonio Dias sai de seu refúgio na Europa para trazer ao Brasil a exposição ‘‘O País Inventado’’, que chega em novembro a Curitiba. Ele fala com exclusividade à Folha 2
O pernambucano Antonio Dias suspira pensando no apartamento que possui em Colônia, na Alemanha, mas justamente agora está envolvido com a exposição ‘‘O País Inventado’’, que iniciou o périplo nacional em Salvador, será inaugurado dia 30 de novembro na Casa Andrade Muricy, em Curitiba, e em fevereiro de 2001 chega ao Museu de Arte Moderna, em São Paulo, para terminar em maio no MAM do Rio de Janeiro. Temporariamente o artista ficará mais no endereço que mantém no último andar de um prédio em Copacabana, no Rio de Janeiro.
Os compromissos no Brasil motivados por esta antologia que reúne 30 anos de carreira – ele acha que é muito cedo chamar a mostra de retrospectiva – não encerram por aqui as atividades de Antonio Dias. Sua agenda inclui a Feira Internacional de Arte Contemporânea, em Paris, uma exposição em Madri, algumas individuais européias e ainda o início de uma nova série de pinturas, ‘‘Autonomias’’. As cores invadem as telas, num ‘‘exagero’’ como ele diz.
Dias saiu de Campina Grande (PB) para ganhar o mundo. A primeira estação foi o Rio de Janeiro, onde estudou com Oswaldo Goeldi, na Escola Nacional de Belas Artes. Em 1965 ganhou uma bolsa da Bienal de Paris, fez as malas e partiu. Em 1968 instalou-se em Milão e passados 21 anos, foi para Colônia. Curitiba verá, a partir do último dia de novembro, a inquietante obra do artista. O ano encerra com chave de ouro para a Casa Andrade Muricy – um presente que a Petrobras, patrocinadora da mostra, deu para a cidade.
O título de sua exposição é sugestivo: ‘‘Antonio Dias – O País Inventado’’. Que país é esse?
É o país da arte, da poética. No meu caso, que sou um artista auto-exilado, vivo sempre no exterior, quase é o meu país de verdade mesmo. Esse é o título de vários trabalhos que comecei a produzir em 70, 71. De certa maneira ele vai aparecer no meio dessa exposição. Mas não é um país xis.
Seria uma geografia da saudade do Brasil?
Não. Não existe essa questão, quer dizer, não tenho saudades do Brasil no sentido ‘‘morro de saudade’’. Sou completamente integrado onde quer que esteja. Me habituei, né? Depois que você sai, fica vários anos fora, não tem mais como se sentir fora de casa. De vez em quando dá uma saudade de praia.
E a exposição?
É uma panorâmica sobre meu trabalho nos últimos 30 anos mais ou menos. Inclui pintura, objetos, instalações com projeção de filmes que fiz nos anos 70. Então, tem um começo de multimídia que foi ensaiado em 1970, 71. Ela parte de 1968, com algumas instalações desmaterializadas; objetos, como cabeças, mas nossa intenção não é fazer uma montagem de tipo cronológica. As peças foram escolhidas em função de uma comunicação entre elas. Os espectadores vão poder passar de uma para outra, encontrando ganchos de passagem. Então é nesse espírito que a exposição foi mais ou menos desenhada.
Seria um círculo evolutivo?
Não será um círculo evolutivo, mas há uma caminhada e vários discursos – não existe somente um discurso no meu trabalho, porque há coisas que tem várias direções –, mas essa caminhada é mais ou menos orientada por mim. É claro que a coordenadoria da exposição ficou comigo, mas a partir de São Paulo ela tomará um outro rumo. Porque as exposições de São Paulo e do Rio serão muito maiores, devido ao espaço que ocuparão. Essa visita que estamos fazendo aqui, já definiu que teremos que trazer mais obras do que na Bahia. Ainda não sabemos quanto, ou em que direção as peças serão aumentadas. Seguramente uma ou duas instalações a mais deverão serão apresentadas. Vamos ver. Esta visita é para definirmos que tipo de exposição virá para cá. Ela vai se modificando o tempo inteiro e, apesar de ser itinerante, nunca será a mesma em lugar nenhum.
Tem algo que a caracterize?
O que caracteriza essa exposição, por outro lado, é a diversidade bastante grande de meios de produção. Tem pinturas, objetos recortados, pintados de maneira muito fria, tem pinturas com muita sensualidade na matéria. Vai de um ponto a outro. Essas polaridades existem sempre no meu trabalho e elas estão muito bem exemplificadas nesse projeto. Há uma falta de, vamos dizer, um estilo que influencie só a retina. O estilo está dentro do discurso da exposição. Ele mexe, provoca um pouquinho as pessoas em relação às questões de linguagem, da arte mesmo. Tenho vários trabalhos mexendo com situações políticas, sem fazer panfletarismo.
Quer dizer: cutucando, sempre.
Cutucando! Tem várias coisas sobre o discurso amoroso, de vida e morte. A exposição mexe com vários aspectos do meu trabalho. Não há uma marca que diga: caracteriza esse período. É um arco bem amplo do meu trabalho.
As obras direcionam para a emoção ou para a reflexão?
Mais para a reflexão. A gente parte sempre de um fato ou situação emocional para traduzir; mas no meu caso particular, há uma elaboração dessa emoção até conseguir tirar as coisas dramáticas. Tudo passa por um filtro bastante racional.
Além desta exposição, tem algum projeto sendo desenvolvido?
Estou trabalhando, já há alguns anos, com muitos objetos, instalações e também nova série de pinturas. O meu trabalho não é contínuo de atelier: trabalho um pouco aqui, um pouco ali, um pouco levo à frente. Já é uma grande complicação estar fazendo isto no Brasil, porque a cada etapa, como eu disse, teremos que fazer modificações. Isso significa envolvimento direto, pessoal, com espaço, com as obras. Embora tenhamos aqui uma equipe bem preparada, isso precisa de vigilância constante. Então, vai continuar assim até junho do ano que vem, quando a última dessas exposições acontecer no MAM, no Rio. Será a maior de todas, com instalações penduradas a 20 metros de altura. Isso tudo é meio complicado de seguir. Enfim, é meu plano básico até metade do ano que vem.
Quantas exposições serão feitas na temporada?
Com o patrocínio da Petrobras são quatro. Inclui um catálogo, um livro que será publicado em fevereiro de 2001, em São Paulo, um CD-room que só vai aparecer na exposição do Rio de Janeiro. Ao mesmo tempo vou levando meus trabalhos aqui e na Europa. Em dezembro tenho uma exposição em Madri, no Museu Reina Sofia, onde participo com vários objetos do final dos anos 60; na Europa tenho ainda algumas individuais para realizar entre começo do ano que vem e 2002. Estou sempre muito ocupado.
Esta é a primeira vez que você vem a Curitiba?
Eu já deveria ter vindo para cá, porque um dos meus primeiros prêmios foi aqui no Salão Paranaense. Eu tinha 18, 19 anos. Tive um prêmio de desenho, e acho que até outro. Não me lembro, faz muitos anos. Mas eu nunca havia visitado Curitiba. Quanto ao espaço – Casa Andrade Muricy – achei muito bonito, uma utilização inteligente de um edifício preexistente e remodelado para isso. Parece muito profissional.

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