Arte no Hospital Psiquiátrico
Vivian de Albuquerque
A sensibilidade aguçada de um grupo de pacientes especiais está expressa nas obras que compõem uma galeria de arte, inaugurada ontem, em Curitiba. Eles utilizam materiais convencionais para realizar trabalhos de pintura e escultura. O diferencial é o local do ateliê, que funciona, assim como a galeria, numa das alas internas do Hospital Psiquiátrico Nossa Senhora da Luz da Santa Casa de Misericórdia.
Há três anos, duas artistas plásticas e alguns voluntários iniciaram um trabalho para desenvolver a arte entre os pacientes do asilo. Mas, de uma sala de aula, surgiu a necessidade de se ampliar o espaço, levando para mais longe a produção da oficina. E o resultado foi a inauguração da Galeria da Luz.
Os recursos vieram de doações da comunidade e de diversos eventos realizados pela Legião da Misericórdia, entidade responsável pela manutenção das atividades dos pacientes. A mesa - que vai suportar as esculturas e os materiais de apoio - foi usada no filme Oriundi. Ela nos foi doada pelo Antony Quinn, conta Anna Emília Beltrão, presidente da Legião.E veio acabar parando nesta sala, que antes era uma antiga farmácia e que foi totalmente restaurada para abrigar as obras dos nossos pacientes.
A mostra atual reúne 50 trabalhos realizados por três dos internos sob a orientação das artistas plásticas Cláudia Guimarães e Tutti Stocco. São pinturas de casas, flores, rostos e florestas, ainda questionadas como arte, mas garantidas como terapia e forma de expressão. É uma fala que não é para ser ouvida, mas para ser vista, explica Tutti Stocco. E, no trabalho plástico, isso fica ainda mais gritante porque você não pode disfarçar as emoções.
É uma espécie de materialização de um sentimento, emenda Cláudia Guimarães. E o único quesito é a vontade de participar. Não trabalhamos exatamente com a terapia, mas achamos que todo fazer é terapêutico.
Há sete anos no hospital, Marco Aurélio Passos de Amorim, de 33 anos, é um dos pacientes mais participativos do projeto. Nas contas dele, já pintou mais de 400 telas. A grande maioria em estilo abstrato. É como se fosse uma oração para Deus, conta ele. Não gosto mais de um tema do que de outro, mas mais de uma cor do que de outra. Assim como Van Gogh, eu adoro o azul.
Médico há mais de 40 anos, o provedor da Santa Casa, Ary de Christan, referindo-se à galeria, prefere falar numa evolução da psiquiatria. Nós acompanhamos a época das camisas de força e dos choques elétricos, relembra. E hoje vemos obras como estas, que mostram uma modernidade e uma adaptação dos tratamentos. Não é à toa que a galeria está instalada bem ao lado da nossa capela. Porque aqui também temos um refúgio. Um verdadeiro santuário, conclui.





