Dizem por aí que a moda é fútil, é fugaz e frágil, quase descartável. Um conceito que passa longe da definição que o público e os organizadores da São Paulo Fashion Week defendem. E mais longe ainda dos estilistas que transformam o maior evento de moda da América Latina em arte. O evento que começou no último dia 18 e vai até o dia 23, em São Paulo, é focado no tema ''Brasileirismos''. Como um festival de música ou teatro, há apresentações impecáveis, esdrúxulas e aquelas que imediatamente se tornam clássicas e favoritas do público e da crítica especializada. Nesse último quesito, os primeiros dias de desfiles já trouxeram uma unanimidade, tanto no que diz respeito à coleção quanto produção. E mais uma vez o estilista mineiro Ronaldo Fraga se enquadra nessa categoria.
Fraga apresentou uma coleção inspirada no espetáculo Giz, criado pelo diretor teatral Álvaro Apocalypse (1937 - 2003), na década de 80, para o grupo de teatro de bonecos Giramundo. Levou para a passarela os únicos bonecos de pano confeccionados pelo artista, que acreditava que as peças tinham que ter uma durabilidade maior e por isso procurava outros materiais. O estilista viu pela primeira vez os bonecos numa exposição de repertório do grupo há alguns anos. No ano passado, o espetáculo completou 20 anos e Fraga decidiu fazer uma homenagem. Criou a coleção ''Tudo é risco de Giz'' e levou os bonecos, que ele considera ''espelhos do homem comum'' e seus manipuladores para a passarela.
O espetáculo se tornou ainda maior e mais interessante porque Fraga substituiu os modelos profissionais acostumados às passarelas e aos holofotes por homens e mulheres comuns, com mais de 60 anos e crianças. A maioria do casting nunca tinha pisado numa passarela antes, como é o caso da secretaria aposentada Sueli Becker, de 66 anos. ''Achei a experiência emocionante''. Perguntada se usaria uma roupa do Fraga, ela respondeu timidamente: ''O pretinho básico sim. Os outros teria que pensar''. O maior desafio do estilista, aliás, foi exatamente esse, como ele contou após o desfile: fazer uma roupa que vestisse bem em todas as idades, do manequim 38 ao 42. ''Eu só chamei as modelos para a prova final. Acho que essa transposição de volumes faz parte da criação''.
Na coleção de Fraga, as roupas ganharam volumes sombreados. Ele apostou no branco, cinza e preto, cores que já aparecem como as grandes vedetes da estação. E para mostrar que a moda está cada vez mais distante da futilidade, o estilista se inspirou ainda em clássicos da literatura como A Divina Comédia, de Dante, além de autores como José Saramago e Pablo Neruda. O resultado é uma coleção que traz em cada peça, uma história. As roupas criadas por Fraga são mais do que vestimentas: são obras de arte.
Além de Ronaldo Fraga, desfilam no evento 37 marcas que vestem cerca de 250 modelos em 38 desfiles. Fraga é um exceção ao levar rostos anônimos para as passarelas, porque o evento é marcado pelos desfiles de modelos internacionalmente conhecidas, como a top Gisele Bunchen que desfilou para a Colcci. Com os cabelos mais curtos e escuros, ela chamou mais atenção do que as roupas da coleção da marca catarinense, que não apresentou muita novidade no que se refere a cortes e tecidos. Por enquanto, os destaques foram as marcas Osklen e Isabela Capetto, que levaram para a passarela roupas que podem ser transportadas sem medo para a realidade.
Fora das passarelas, também há atrações na 26 SPFW. Para quem quer conteúdo, uma exposição com roupas e acessórios originais e réplicas da Pequena Notável Carmen Miranda estão expostas numa mostra no quarto andar da Bienal. Os célebres sapatos de salto plataforma criados por ela e desenvolvidos por um sapateiro carioca, por exemplo, podem ser vistos por lá, além dos vestidos que ela usou em filmes como ''Uma noite no Rio'' e ''Greenwich Village''. Só para lembrar - e reforçar - que a moda, muito mais que efêmera, é história.
A jornalista viajou a convite do evento.

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