A arte moderna brasileira já se constituiu como uma tradição sólida? As visões antropofágicas de Oswald e Tarsila estariam agora sendo realizadas, como resultado do processo de integração da arte brasileira ao circuito internacional? Nossos artistas teriam, finalmente, acertado os ponteiros do relógio com os modelos de fora? Que contribuições eles poderão fornecer ao resto do mundo?
São questões como essas que a curadora e crítica de arte Sônia Salzstein pretende suscitar no próximo dia 24, quando encerrar a 5ª Semana de Arte em Londrina com uma conferência no anfiteatro do Centro de Ciências Humanas (CCH) da UEL. Sônia falaria anteontem na mesa-redonda ‘‘A modernidade em Volpi e Guignard’’, mas acabou cancelando sua participação por motivos pessoais. Ela foi a principal assessora dos organizadores da Semana, fornecendo subsídios para a escolha do tema do evento.
ReproduçãoA tela‘‘Abaporu’’, de Tarsila do Amaral, inspirou Oswald de Andrade na criação do movimento antropofágicoNo ano passado, fez a curadoria de uma mostra sobre a obra de Tarsila do Amaral, em São Paulo. Na Bienal Internacional, que começa dia 4 de outubro, será responsável por outra exposição dos trabalhos da artista. Tarsila, para Sônia, representa o que houve de mais estimulante na arte brasileira dos anos 20.
Criando uma nova linguagem visual, na qual combinava elementos das vanguardas européias e o imaginário popular nacional, o legado da artista seria emblemático das causas pelas quais tanto se bateu Oswald de Andrade em seus célebres manifestos dos anos 20. Convém lembrar que foi justamente a pintura ‘‘Abaporu’’, de Tarsila, que inspirou o escritor na criação do movimento antropofágico.
‘‘Tarsila foi a primeira a diagnosticar nosso descompasso cultural’’ - diz Sônia. ‘‘O arrojo de sua obra apontava para a idéia de não ficar a reboque, de não macaquear os modelos culturais estrangeiros, mas de dar um salto qualitativo devorando-os a partir de um ponto de vista local.’’ O grosso da produção artística brasileira, entretanto, pouco se nutriu dessa herança estética.
Olhada em perspectiva, é possível flagrar a manifestação de seus projetos mais ambiciosos somente algumas décadas mais tarde através de obras de Hélio Oiticica, Lygia Clark e Lygia Pape - já sob a vertente contemporânea. ‘‘A partir desse período, houve uma radicalização experimental dos artistas, que propunham soluções originais em confronto com as formas modernas’’ - lembra Sônia.
Atualmente, as utopias modernistas - em especial a visão emancipadora de Oswald de Andrade - parecem retornar ao centro dos debate culturais. Não por acaso, a antropofagia foi o tema escolhido para a próxima Bienal Internacional de Arte. ‘‘Estamos fechando um século’’ - pondera a curadora.
‘‘Estamos vivenciando transformações profundas na arte brasileira que, com a globalização, integrou-se ao circuito internacional. Já podemos afirmar que a arte brasileira é um paradigma reconhecido. É um momento promisssor e provocativo, que nos faz indagar se não estamos finalmente realizando as premissas do modernismo.’’
O assunto, como se vê, é dos mais estimulantes. É em torno dele que as mesas-redondas estão sendo realizadas desde o começo da semana às 20 horas, no anfiteatro do CCH, na UEL.

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