Arte global, questões regionais
Rubens Pileggi de Sá
Especial para a Folha 2
Embora o muro das desigualdades econômicas continue separando o capital do trabalho e a propriedade do uso, os valores impostos pela globalização permitiram, por um lado, o acesso a todo tipo de informação, trocas e interações entre povos e nações de culturas diversas, distantes uns dos outros até bem pouco tempo atrás.
A noção referente a centro e periferia vem sendo cada vez mais abolida, mesmo porque o capital, hoje, não tem mais pátria. Do mesmo modo, cai a fronteira entre a arte de vanguarda e a arte tradicional, étnica, popular, regional.
Há tribos indígenas usando o computador em suas aldeias, incorporando a tecnologia eletrônica para preservar suas tradições.
Somos todos parte de pequenos grupos, comunidades, aldeias, contaminados e contaminando outras visões em contextos diferentes, com nossas peculiaridades específicas.
O trabalho desenvolvido no seio de determinada realidade, deve ser definido pelo diálogo profundo com o meio histórico, social, geográfico, econômico e político onde é gerado. Assim, a pertinência das questões levantadas poderá ser colocada em discussão e comparação com outros modos de pensamento e expressão do mundo todo, sem gerar nenhuma crise de compatibilidade, ou precisar abrir mão da identidade própria. É a chamada globalização da cultura. Uma ação local agindo em relação a um contexto global, numa grande rede de conexões.
Ao contrário do comodismo e da vaidade que infectam as exigências dos que se dão por felizes pela penetração que suas obras conseguem no mercado local, o rigor e a determinação para se construir uma obra consistente está além das expectativas geradas pelo corpo coletivo que sustenta esses artistas. A palavra para designar essa relação é provincianismo. Os artistas se exigem pouco, estudam pouco, se especializam em determinadas técnicas como se fossem operários, digladiam entre si por insegurança de seus próprios trabalhos e deixam de desenvolver uma ação conjunta, por pura vaidade. Estão longe de aceitar a diversidade, tão importante para a disseminação da cultura.
A arte nasce das idéias que somos capazes de desenvolver. E as idéias são geradas pela necessidade da resolução de equações que são vitais à sobrevivência do grupo, da comunidade.
Prêmios, vernissages, convites sociais, não servem de consolo à mente inquieta. A consciência aberta de quem está atento e percebendo o movimento do mundo, está comprometida com seu próprio trabalho como meta e caminho. Não se desvia querendo ser o que não é. Conhece seus limites territoriais.
O resto é fruto de trabalho competente, sensível e honesto. Assim como o humilde lavrador sabe da chuva e do sol no momento de plantar e colher, o verdadeiro artista sabe o desejo de sua terra.
Afinal, como dizia Leonardo da Vinci: Conhece tua aldeia e conhecerás o mundo todo.
Rubens Pileggi Sá é artista plástico





