Arte fantástica
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 01 de abril de 1998
Telma Elorza 
A artista plástica Letícia Faria abre hoje, às 20 horas, no Museu Metropolitano de Arte (MUMA), em Curitiba, a exposição de esculturas Vigília. Ao todo, a artista estará mostrando, até o dia 10 de maio, 13 esculturas produzidas em madeira, ferro, alumínio, resina e massa universal. A promoção é do museu, com patrocínio da Fundação Cultural de Curitiba, Viação Garcia e Banestado.
Mineira, radicada em Londrina há 23 anos, Letícia apresenta, nesta exposição, o resultado de quatro anos de pesquisa. As obras, em sua maioria inéditas, fazem parte de um ciclo que começou com a instalação da Capela do Juvenato Marista, em Londrina, em 1991 - com o tema Apocalipse -, e passou pela série Espírito Santo, em 93. Depois de trabalhar com a energia do espírito, perceptível mas não palpável, senti necessidade do corpo e da carne. A junção do espírito com o corpo faz com que o indivíduo se sinta inteiro e feliz. E o que eu tentei materializar foi este mistério, que é vida e morte - diz.
As 13 figuras - Dona Santa, Mamma Mia, Bolo de Rolo, Maria Filha de Maria, Minha Princesa, Massa Universal, Modelo Padrão, Desencarnado, Arca de Noé, Dragões da Independência, Arcano, Batizatu e Amuleto -, segundo Letícia, trazem em si toda a vivência, experiências, sensações e percepções atemporais reunidas num espaço indefinido que existe dentro da sua realidade interior. Elas são tudo isto traduzidas em matéria. O real é o que está no nosso corpo e o que chamamos de realidade é apenas uma verdade individual. Está é a minha verdade que materializo em ferro, alumínio, madeira e massa universal, numa tentativa de traduzir este mistério que é viver, em formas que eu chamo de mitos - diz.
Segundo ela, este mistério só é percebido quando se está em estado de vigília. O Aurélio (dicionário) define vigília como privação de sono. Mas que eu acho que vai além da privação orgânica. Seria como uma abertura plena de sentidos, estar completamente livre de preconceitos e sem se ligar a estruturas formais. E foi este estado de vigília que me levou a captar alguma coisa a mais, formas livres que chegaram até mim já completas, embora fluídas e imateriais - conta.
Com seus mitos, Letícia coloca a estranheza da vida em reflexão, para atingir e questionar os mitos deste final de século. As pessoas se encontram num momento estanque. Ninguém mais faz uma reflexão profunda do seu próprio eu. A mídia está aí criando novos mitos e ídolos a cada dia, criando necessidades e desejos de consumo que não são nossos, e a gente recebendo tudo isto passivamente. Eu espero que, com este trabalho, as pessoas saiam deste estado paralisante que se encontram e passem a refletir, passem de criaturas a criadores. Só aí teremos condições de seguir em frente - afirma.
Exposição Vigília - esculturas de Letícia Faria - abertura hoje, às 20 horas, no Museu Metropolitano de Arte (Av. República Argentina, 3.430, fone 322-1525), Curitiba. A exposição fica no museu até 10 de maio.


