A vida comunitária na ''Caravana Arco-Íris pela Paz'' chama a atenção. Com um desjejum apetitoso sobre o gramado da lona da Escola de Circo de Londrina (onde ficaram acampados) composto de mingau de aveia com manga, panquecas, melado de cana-de-açúcar, banana e mamão fatiados, suco de abacate e chá de camomila com canela o grupo saúda em círculo, de mãos dadas, como forma de agradecimento, os alimentos e o sol que tornam a vida possível. Os cozinheiros também recebem agradecimentos. Na escala da manhã de quinta-feira, trabalharam o jovem porto-riquenho Eriberto, que aplica oficinas de teatro, e a adolescente argentina Carolina, de 15 anos, que há quatro anos integra a ''Caravana...'', junto com a sua irmã caçula Sofia, de 13 anos, e a sua mãe, a pedagoga Veronica Sacta Campos, 30 anos.
Na porta da cozinha improvisada no ônibus que tem até teto solar para aproveitar a energia natural e com tudo praticamente limpo, para a turma que irá assumir o almoço, Carolina contou que gosta muito da vida que leva. ''No começo não foi fácil deixar os meus amigos. E, mesmo agora, também sinto por ficar longe dos amigos que vou fazendo pelo caminho, mas a gente se comunica por e-mail'', explicou.
Questionada se não sente falta de ter o próprio quarto e suas coisas organizadas de forma não comunitária (embora os pertences pessoais, como roupas, não sejam partilhados), ela diz que se adaptou. ''No começo foi difícil, mas o aprendizado que recebo aqui é tão grande que compensa qualquer coisa'', destacou. Ela quer ser veterinária e já começa a pensar nos testes que provavelmente terá que fazer na Argentina, daqui a uns dois anos, para dar início ao seu retorno à educação formal.
Perto dela, estava o chileno Manoel Herrera, 25 anos, que dava os últimos acabamentos na nova pintura do ônibus. Além da manutenção, ele aplica oficinas de pintura. Feliz com a vida nômade, disse que não vê a hora da filhinha Estrela, de 2 anos, nascida em um acampamento da caravana, retornar dos Estados Unidos, onde está com a mãe em visita aos avós maternos. Herrera conheceu a mãe da Estrela quando começou a integrar a trupe, mas hoje os dois não formam mais um casal. Logo depois do nascimento do bebê, se separaram, mas convivem em harmonia.
A pedagoga argentina Veronica, a jovem mãe de Carolina e de Sofia, tomou contato com o trabalho da ''Caravana...'' em 2002, quando participou da organização na Argentina do ''Encontro Nacional de Mulheres''. Professora primária, também atuava em organizações sociais junto a mulheres imigrantes. Profundamente identificada com a proposta inovadora da ''Caravana Arco-Íris pela Paz'' (que remete ao prisma de cores, como referência da importância do respeito aos povos), demorou sete meses para comunicar pais e filhas sobre a nova decisão. Após alguns conflitos, seguiu o novo caminho há quatro anos. Uma outra surpresa aconteceu quando se viu apaixonada pelo fundador do grupo, o mexicano Alberto Ruz Buenfil, de 61 anos. Demonstrando respeito mútuo e carinho, os dois parecem formar um casal feliz. Ela se dedica a oficinas de medicina natural, resgate da energia feminina e também é a simpática relações-públicas da trupe. ''Desde criança gosto de viajar e em cada lugar que visito é uma casa e família novas que tenho como referência'', sintetizou.
Há também brasileiros nas ''casas rodantes'', como gostam de intitular suas moradas. Um dos mais novos integrantes é Nelson Costa Pedro, 54 anos. Com o compromisso de assumir até o final do projeto no Brasil a função de motorista, além de usar seus conhecimentos de mecânica, ele demonstra extrema animação com a vida mambembe. Antes de integrar a trupe, levava uma vida estressada acompanhando grupos de turista em São Paulo. Depois de um assalto, em que ficou 8 horas na mão de bandidos, que levaram o seu ônibus recém-comprado, fez uma retrospectiva da própria vida e decidiu mudar. Acabou trabalhando com uma outra ong brasileira ''Bus on Ganesha'' de São Paulo, que também viaja o Brasil levando cultura para diversos lugares. Na Paulicéia, deixou a esposa, que é funcionária pública e uma filha de 13 anos, Aisha (que significa ''vida'', no dialeto africano 'swahili') que não vê a hora de chegar as férias para ficar no acampamento. ''Aparentemente damos a impressão de bicho-grilo, mas daqui a uns 10 anos seremos mais respeitados que a rainha da Inglaterra pelo conhecimento que estamos propagando'', destacou Pedro, que é fã de cinema e não perdeu o preço promocional para assistir, com mais três integrantes do grupo, à exibição de ''O Código Da Vinci'', que achou interessante.

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