Arte é usada para elevar auto-estima de jovens
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quinta-feira, 19 de agosto de 1999
Por Júlio Gama 
São Paulo, 19 (AE) - Rafael, de 16 anos, já fumou crack e andou armado, mas garante que, há três meses, vem-se dedicando exclusivamente a ensaiar a coreografia de seu grupo de street dance, o CT-Break. Jaqueline de Freitas, de 13 anos, babá, divide com a mãe o salário mensal de R$ 170 e há pouco descobriu que pode usar os braços também para dançar balé. Jessica Mayara, de 11 anos, nunca pisou num teatro, mas surpreende-se cantando em italiano nas aulas do coral.
Rafael, Jaqueline e Jessica moram na Cidade Tiradentes, último bairro no extremo leste da cidade, distante 55 quilômetros do centro de São Paulo, conhecido bolsão de pobreza, considerada uma das áreas mais violentas da capital. Cidade Tiradentes abriga 600 mil moradores num amontoado de prédios da Cohab, sem teatro, cinema, parques ou centro cultural.
Desde maio, os três jovens fazem parte do Projeto Arquimedes, uma ação da Secretaria da Cultura do Estado de São Paulo, que está usando a arte para aumentar a auto-estima dos moradores da periferia e tentar afastá-los da violência. "Além de dar uma opção ao ócio, o projeto melhora o relacionamento dos jovens com a escola", avalia a socióloga Lola Berlinck, assessora de Projetos Especiais da Secretaria de Cultura.
Além de Cidade Tiradentes, o Projeto Arquimedes foi posto em prática em outras quatro regiões: Itaim Paulista, Jardim ¶ngela, Itapevi e Franco da Rocha. Em três meses recebeu 1,1 mil jovens em cinco atividades: capoeira, dança, teatro, canto coral e percussão (em alguns casos também grafite, artes plásticas e rap). Considerado um sucesso, o Projeto Arquimedes será ampliado para mais dez escolas a partir do próximo sábado, chegando a atingir 4,1 mil jovens.
Na semana passada, o Projeto Arquimedes foi integrado a outro projeto, o Parceiros do Futuro, do Governo do Estado que, com o apoio de seis secretarias de Estado, visa a despertar a cidadania em adolescentes que moram em regiões violentas. O Parceiros do Futuro espera atingir diretamente 204,6 mil alunos de 102 escolas estaduais. As aulas são ministradas por monitores especializados contratados em São Paulo.
Os seis integrantes do CT-Break estavam separados há dois anos porque não tinham onde ensaiar. "Sem a dança a gente não tem nada para fazer e acaba caindo na vida mesmo", diz Sérgio, de 16 anos. "Não quero acabar como um monte de manos que morreram de tiro." Num lugar em que falta tudo, falar de outro assunto que não seja a violência já eleva a auto-estima dos dançarinos. "O pessoal só vem aqui para falar de morte", protesta Edilson, de 18 anos. "Aqui se mata até por R$ 5", continua. "Mas não tem só violência."
De acordo com informações mais recentes da Secretaria de Segurança Pública, de janeiro a junho deste ano, 2.011 policiais vigiaram 997 escolas do Estado. Mesmo assim foram registradas as seguintes ocorrências: 4 homicídios, 4 tentativas de homicídio, 69 crimes de lesão corporal, 25 furtos, 17 roubos, 2 casos de estupro, 15 registros por porte de entorpecentes e 1 encontro de cadáver, entre tantos outros crimes.


