Este texto é uma adaptação livre do diálogo, via internet, entre Marcelo Dantas e Roberto Moreira, publicado na revista ‘‘Item’’, do Rio de Janeiro, em fevereiro de 96:
‘‘Pessoas dizem que tecnologia é um monte de máquinas. Tecnologia é o que nós somos. Balé é tecnologia. Michelangelo é tecnologia. Mas entender a tecnologia do corpo, o instrumental dos sentidos, ainda é uma fronteira pouco explorada na arte.
Na verdade, arte e tecnologia sempre andaram juntas. Já pensou o que era uma perspectiva bem feita no século 14? Isso sim é high tech. Quer dizer, a linguagem é uma máquina, o cérebro idem, os espíritos também. Seria a fé também uma máquina? Teria a ciência se transformado em uma religião, e nós seríamos os apóstolos dos eletrodomésticos? Ou é só a nostalgia de uma autenticidade que nunca existiu? Se adornarmos a tecnologia com ícones religiosos, ela tanto pode ser entendida como sendo o Demônio quanto o Messias. O que não podemos é ficar distraídos.
Vivemos em um ambiente midiático que mutila nossos sentidos. Estamos imersos na ‘midiasfera’, que é a reunião de todos os instrumentos de simulação do real e que não são, necessariamente a realidade; imprensa, tv, internet, video games: passamos cada vez mais tempo comendo e bebendo na ‘virtuália’. Ampliar a percepção hoje é quase subversivo, já que o maior desafio que a tecnologia nos impõe é o de como colocar em jogo o corpo.
Mas, pra quê escrúpulos, se arte, ciência e religião não são mais que representações? É preciso criar uma arte que não tema a gramática do mundo contemporâneo, que incorpore os avanços da ciência e ao mesmo tempo que refresque os meios de sua usual ‘burocratice’ com inventividade. Afinal, Godard já ensinou que a comunicação é uma ilusão e a nossa condição é a de estarmos inevitavelmente sós. Slogans! Os slogans são território da língua inglesa. E, na era da tecnologia, um inglês mais simples e mais formuláico serve para se comunicar (comprar) pela internet. Os slogans unívocos não despertam mais a atenção. As mensagens ‘artísticas’ são mais abertas e ambíguas, neste mundo onde as artes materiais viraram comodities.
Por isso, o papel da arte hoje é mais conceitual do que material. Os artistas se apropriam da mídia, para subverter a intenção. Também jogam com os simulacros, o travestimento, as falsas evidências. O artista hoje não tem mais compromisso com o museu, mas com a sociedade. O conceito de museu de arte é muito posterior ao conceito de museu.
Cai a linha. Dantas desiste, pega o telefone e liga para Moreira:
‘Acho que a tecnologia não quer deixar a arte falar. Essa estrada da informação mais parece com uma trilha da desinformação’.
É o fim da picada.
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