Arte e loucura, expressões sem limite
Rubens Pileggi Sá
Especial para a Folha2
Uma pergunta vem sendo feita a toda civilização ocidental pela psiquiatria e pela arte, desde o fim do século 19: Como é que pessoas marginalizadas da história e da sociedade podem construir uma linguagem de expressão como forma de conhecimento sensível do mundo?
Arte de loucos, art brut, arte de alienados, arte incomum, arte virgem, todos sinônimos de uma mesma manifestação que abriu espaço para que a cultura se apropriasse de métodos criativos e, a partir daí, toda a arte moderna e a psicanálise passaram a incorporar tais valores, até então desprezados no fundo do inconsciente da humanidade.
Van Gogh, como artista, talvez tenha sido o primeiro a se desapegar do realismo das imagens, incorporando cores e texturas que faziam o quadro falar de si próprio. Ele gritou sua dor através das tintas que jogava no quadro.
A arte deixava de representar o mundo através de técnicas, para ser ela própria expressão do mundo.
Salvador Dalí inventou um método chamado paranóico-crítico, em que uma imagem continha outra ao mesmo tempo, sem que percebessemos à primeira vista.
Nos anos 40, segundo relata a historiadora londrinense Marta Dantas, houve um grande encontro entre o pintor Jean Dubuffet e o fundador do surrealismo André Breton, nascendo daí A Companhia da Arte Bruta.
No Brasil, Osório Cézar e Flávio de Carvalho foram os primeiros organizadores de uma exposição de alienados do Juquerí. Historiadores e críticos de arte como Mário Pedrosa também se debruçaram sobre o tema.
Com uma experiência bem-sucedida, a psiquiatra Nise da Silveira criou na clínica do Engenho de Dentro, no Rio, ateliês de arte para os internos, revelando, inclusive, grandes artistas embora sem essa pretensão.
Na década de 80, a obra de Arthur Bispo do Rosario assombrou o País e seu trabalho foi parar na Bienal de Veneza de 1995, representando o Brasil. Como uma missão, ele criava mantos para se apresentar a Deus no Dia da Passagem, assemblages, objetos e peças, absolutamente conectado com o que era apresentado nas melhores exposições do mundo, sem jamais ter saído da Colônia Juliano Moreira, onde ficou internado por mais de 50 anos.
Assim é o trabalho de Jardelina. Estilismo, arte, performance, teatro, loucura, messianismo? Com quais ferramentas teóricas é possível decifrar seu labirinto de significados essencialmente popular e orgânico?
Essas questões nos fazem pensar numa constelação de categorias que vão desaguar na poética e na política do corpo tão marcantes na arte contemporânea. Com sua criatividade exuberante e exibicionista, tão afinada com a estética glauberiana, solar, quanto sintonizada com os parangolés de Hélio Oiticica, Jardelina cria um trabalho para ser sentido, vestido, experimentado, vivenciado em suas cores, volumes e texturas, de forma pessoal e intransferível. A pergunta feita à civilização permanece no ar depois de um século, porque no fundo ela questiona a própria história da arte e a história de nossos tempos modernos.





