Arte e comércio, uma luta desigual
Ranulfo Pedreiro
Roberto Gnatalli, professor do curso História, Leitura e Escrita de Música Popular Brasileira, alerta para o consumo excessivo de músicas comerciais e suas consequências para a cultura do País
A fusão está dando o tom da atual música popular brasileira. Ao mesmo tempo em que ritmos tradicionais são atraídos para o primeiro plano da composição, o background inclui desde ruídos a efeitos eletrônicos diversos, passando por samplers e skratches. Essas características, presentes nas obras de Zeca Baleiro e Lenine, por exemplo, apontam para um caminho definido pelo excesso de referências e informação. As misturas se dão também dentro da música comercial, em que o pagode e o forró se aproximam das baladas românticas, diluídos em arranjos de teclados.
Houve também um tempo em que a MPB tinha estilos definidos, compartimentados em denominações como modinha, maxixe, lundu. Fazer uma análise que una estes dois períodos inclui questões no mínimo complicadas: definir os limites da MPB e esclarecer a época de seu surgimento.
Essa temática está embutida no curso História, Leitura e Escrita de Música Popular Brasileira, dentro das atividades do 19º Festival de Música de Londrina. O curso é ministrado por Roberto Gnatalli, um músico de currículo extenso que começou com estudos de piano erudito, realizados na infância. Posteriormente, ele trabalhou como arranjador e se especializou em Educação Musical na UniRio. Fundou a Orquestra de Música Brasileira no Rio de Janeiro e o Conservatório de Música Popular Brasileira em Curitiba. Atualmente é professor adjunto da UniRio.
Estou dando a história e a formação dos gêneros que foram fixados a partir do final do século passado até a década de 50, comenta Gnatalli. O trabalho não é fácil. Como determinar, por exemplo, quando surgiu uma música genuinamente brasileira?
No final do século 18 aparecem a modinha e o lundu. Esses gêneros foram fixados com a polca, a valsa, a mazurca e o schottish, que são estrangeiros. Com essa mistura, no fim do século 19 há o primeiro grande movimento de renovação estética da MPB, com Chiquinha Gonzaga, Ernesto Nazareth, Patápio Silva, Joaquim Antonio Callado, Zequinha de Abreu e Henrique Alves de Mesquita, entre outros, comenta.
Essa geração também foi importante por lançar as bases do que se tornaria a MPB moderna, que se inicia, segundo Gnatalli, no final da década de 1910. É quando aparecem Pixinguinha, Donga, Sinhô, João da Bahiana... A MPB tem origem no povo, nas camadas mais humildes, há uma presença constante entre os compositores populares daqueles que estudavam música mas não eram eruditos, ressalta.
Nessa época, o maxixe foi popularizado, preparando a estrutura para o surgimento do samba. Em 1917, com a gravação de Pelo Telefone, entra em cena a música composta especialmente para o Carnaval: Até então não existia uma música própria, isso apareceu com a gravação e se tornou hoje um fato comercial.
A tecnologia de gravação favoreceu o contato musical entre as regiões do País. Segundo Gnatalli, há uma comunicação mais rápida: Isso foi básico e acabou condicionando a própria música, que passou a ter um formato que se encaixa no tempo de gravação do disco.
Ainda no começo do século, era comum os cantores improvisarem, tornando as canções longas, sem um tempo de duração definido. Com o aparecimento de técnicas de registro, essa prática foi desaparecendo. É a tecnologia influindo na estética, mas foi fundamental para preservar, divulgar e difundir as músicas que eram feitas nos centros urbanos, avisa Gnatalli.
O advento do disco também vai colaborar para a edição das composições, algo não muito comum no começo do século. As músicas eram editadas para o disco. Após a edição, eram vendidos o disco e a partitura, salienta.
Roberto Gnatalli lembra que a edição das músicas populares viria bem depois: O Cartola tem até hoje músicas que só o Nelson Sargento sabe de memória. Editar música não é uma prática, tirando a iniciativa do Almir Chediak de produzir os songbooks, e alguns trabalhos da Vitale, o resto é incipiente.
O aparecimento dos songbooks - livros que reúnem a história e uma seleção de partituras de um determinado compositor - no Brasil é recente e propiciou uma harmonização mais correta. Geralmente os instrumentistas tiravam as músicas de ouvido, o que ocasionava muitos erros. O Chediak fez essas correções com os próprios autores, mas os songbooks não atendem a todas as necessidades, só trazem melodia, harmonia e letra. É necessário uma edição mais completa com arranjos para base e uma célula rítmica, completa.
Toda essa contextualização esbarra em um tópico delicado e, muitas vezes, subjetivo: os limites do que seria a música popular brasileira. Tudo o que se faz hoje no Brasil, baseado em ritmos tradicionais ou baseado em pesquisas experimentais eu chamo de MPB, revela Roberto Gnatalli. Ela é fixada na primeira metade do século 20 até a década de 60, com a Bossa Nova. Do Tropicalismo em diante não existe uma compartimentação clara como era no passado, pois o movimento absorveu de tudo.
Outro fenômeno ganhou asas, principalmente nas últimas décadas: a indústria fonográfica mostrou potencial de mercado e passou a ditar gostos e modas. A indústria cultural passou a dominar esse espaço, e bom para ela é o que vende. Isso não é bom para a MPB porque ela vai perdendo espaço, ressalta.
A preocupação de Gnatalli tem uma lógica clara e revela os estragos que a difusão intensiva da música comercial pode fazer na cultura brasileira. As músicas que foram significativas em uma geração caem no esquecimento na geração seguinte. O raciocínio do músico traz uma conclusão tão temível quanto real: Mantido o sistema atual de comércio, a tendência é a música artística virar um produto raro e caro. Para a música erudita também. Nos festivais de hoje há um trabalho para preservar o gosto para esse tipo de música, seja Beethoven ou Pixinguinha. Mesmo assim a música artística está perdendo essa guerra.





