Arte e ciência num discurso teatral
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 25 de abril de 1997
Zeca Corrêa Leite Sucursal de Curitiba 
O mundo não é mais o mesmo de 40 anos atrás. Ele tomou uma velocidade incontrolável e hoje tudo se move sob o signo da urgência. Mesmo as relações humanas são mais distantes - via Internet -, a tecnologia guia (e isola) o ser humano. Nesse contexto cibernético qual o papel do teatro? Ele deve assumir a postura nervosa da linguagem do videoclipe? Ou deve tomar as rédeas da pressão e manter-se como uma ilha no desatino da correria?
A peça R, de Fernando Quinas, em cartaz na Casa Vermelha, em Curitiba, coloca essas e outras questões na berlinda. A montagem fica no meio termo entre a apresentação formal e a performance, explica o autor. Não tem começo, meio e fim tradicionais, e o que os atores fazem é o tipo da representação que não precisa necessariamente da criação de um personagem.
Einstein O fio condutor do espetáculo é a Teoria da Relatividade, de Einstein. E por que justamente esse tratado? Porque ela provocou uma revolução no começo do século, quando foi publicada. Uma revolução que não foi só científica, porque ela altera a própria idéia de tempo, de espaço, do mundo mais infinito. Ela tem reflexos tanto na arte, como na filosofia e outras áreas, explica Quinas.
O discurso que a peça encerra ampara-se nas reflexões de Einstein, mas vai além de suas páginas. O teatro, por exemplo, é uma questão importante neste trabalho. Como ele poderá ser político, voltado aos problemas sociais sem ser necessariamente panfletário como ocorreu nos anos 60?
Com tantas perguntas no ar, a peça teria também as respostas ao público? Fernando Quinas diz que não. Uma das inspirações da montagem é o teatro político de Brecht, que evitava o proselitismo e apontar direções para a platéia. Ele tinha uma posição sobre o teatro e a política que é a minha posição. Mas Brecht procurava não definir as questões, e sim propor de modo que pudessem amadurecer, argumenta.
R, portanto, não traz um mapa direcionando caminhos. Seu autor espera que o público participe, mastigue as informações e faça o que achar melhor. O espetáculo, por ser multimídia, explora recursos não convencionais ao teatro como projeções de filmes, slides, retroprojetores. Seguindo o espírito da montagem a platéia não tomará a forma tradicional: A gente usa arquibancada, o público fica frente a frente, encerra Quinas.


